Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 29 de maio de 2011

Alexei Bueno

Cacos

Fragmentos, sim, fragmentos, mas de quê?
Que formaremos juntos, nós, pedaços?
Que imagem, qual visão que não se vê
Nascerá da união de nossos traços?
Nós, cacos, nós, partidos, nós, a falta
Do resto, da espantosa explicação,
No que daremos, fim que aos olhos salta,
E quem nos juntará? Qual ser? Qual mão?

BUENO, Alexei. Em sonho. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.390.

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