Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

linhas da mão

A relativa facilidade com que se recorre a noções como intuição, acaso, destino e coincidência, a tentativa de manipulá-las no sentido de projetar enredos, não ilude o próprio destino e seus poderosos fios. O conto de Cortázar foi mais do que um achado. Fez-me perceber, por conexões bastante sutis, não apenas as delicadas linhas de minha mão, enquanto abria e fechava o livro, mas o intricado que se move por elas, as mãos. Mas é claro que não se trata apenas disso. Trata-se de perceber algo maior, percepção que não depende da vontade: depende às vezes de um acaso, o acaso das linhas de um livro, por exemplo. Então o discurso fácil cede a outras possibilidades: as mãos rumam em direções que, num relance, fazem perceber uma parte, ainda que ínfima, dos fios que tecem o enredo (ou enredos) de uma vida, fios que estão e não estão nas mãos. O que está nas mãos são as linhas que dela partem, as linhas do texto que as mãos vão compondo, via palavras, itinerários que se confundem com as linhas, e que tentam delinear, apreender, alcançar, lograr entender, capturar qual teia os fios sutis e a custo discerníveis que movem a vida, uma vida, qualquer vida.

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