Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Wallace Stevens

O impecável, solar fruto da vida
Cai por seu próprio peso sobre a terra.
Quando eras Eva a seiva era suave,
E ele, intacto, em celeste ar de pomar.
A maçã serve tanto quanto um crânio
Para ser livro onde se ler um círculo
Vicioso, por ser feita do que volve
Ao solo, como um crânio, apodrecendo.
Mas o supera por ser, como fruto
Do amor, louca demais para ser lida
Enquanto não se lê por passatempo.


This luscious and impeccable fruit of life
Falls, it appears, of its own weight to earth.
When you were Eve, its acrid juice was sweet,
Untasted, in its heavenly, orchard air ―
An apple serves as well as any skull
To be the book in which to read a round,
And is as excellent, it that it is composed
Of what, like skulls, comes rotting back to ground.
But it excels in this that as the fruit
Of love, it is a book too mad to read
Before one merely reads to pass the time.


CAMPOS, Augusto de. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006, p.264-265.

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