Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Murilo Mendes

TEMPO ÍNTIMO

A forma da noite carrega
Lanternas à esquerda e à direita.

Sombrio passante estendeu
As mãos de humanidade
Sobre os campos talados
Gerando trombones de queixas.

Correu para se alcançar.
Para suprimir o descanso à sombra das pirâmides
Para ouvir a confidência vegetal
E ficar simples, anônimo, no universo de contrastes
― O próprio avesso desta criação.


MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.422.

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