Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

cisco arisco

Cisterisco é uma mistura de cisco e asterisco.* Um asterisco, mesmo de perto, não passa de um cisco ― cisco da palavra que manda para o rodapé, para o dicionário, para outro texto, na hermenêutica sem fim da busca do sentido. De longe, bem longe, o mais longe que se puder, talvez tudo não passe de cisco, o Universo como uma profusão de ciscos em rota constante de colisão, quem sabe de coalizão, embora um cisco no olho, qualquer que seja o tamanho do cisco e do olho, possa dar algum trabalho, o que joga de novo para a hermenêutica. De todo modo, a distância parece ser um modo confortável para lidar com os ciscos: primeiro pelo senso de proporção que é restituído a tudo; segundo porque, muito perto, o cisco pode invadir o olho, atrapalhando ver o que antes era o objeto a ser visto ― desnecessário lembrar o provérbio bíblico e sua subliminar mensagem hermenêutica. Mais do que isso, o cisco que invade o olho é o peso do objeto na visão do sujeito. Como resistir à tentação de não seguir a trilha do asterisco, dos ciscos ao redor da palavra?

* Fusão intuída livremente numa passagem de Rayuela, é preciso admitir.

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