Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

dia mundial da saúde mental

― Parece um diálogo de idiotas ― comentou Traveler.
― De mongolóides puros ― disse Oliveira.
― A gente acha que vai explicar alguma coisa e cada vez é pior.
― A explicação é um erro bem-vestido ― afirmou Oliveira. ― Anote isso.

***

“Longo bate-papo com Traveler sobre a loucura. Falando dos sonhos, demo-nos conta, quase ao mesmo tempo, de que certas estruturas sonhadas seriam formas correntes de loucura, a menos que continuassem na vigília. Quando sonhamos nos é dado exercitar de graça nossa aptidão para a loucura. Suspeitamos, ao mesmo tempo, que toda loucura é um sonho que se fixa.”

CORTÁZAR, Julio. O jogo da amarelinha. Trad. Fernando de Castro Ferro. 15. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, respectivamente p.332 e  p.459-460.

7 comentários:

Helena disse...

Fantástico diálogo!

Um abraço de fim de férias.
Helena

Mariana disse...

Helena, este livro tira grande força dos diálogos.

Outro abraço!

Mariana disse...

P.S.

Helena, assim como você fez no seu post, faltou-me dizer que parti daqui, minha fonte preferida de efemérides:

http://pessoasempre.blogspot.com/2011/10/dia-mundial-da-saude-mental.html

Abraço!

Helena disse...

Muito obrigada, Mariana. Já guardei o link nos meus favoritos.
Este seu blog é uma fonte de reflexões sobre a vida, de que usufruo com muito prazer.

Mariana disse...

Cara Helena, grata.

As palavras são bailarinos fantásticos, a gente vai tentando captar-lhes o movimento, o fluxo, a beleza... E as danças são muitas.

Abraço!

Marcantonio disse...

― A explicação é um erro bem-vestido.

Se o personagem não anotou a frase, eu já o fiz, porque é ótima para explicar muita coisa. E desconfio que os artífices dos trajes da explicação devem ser os costureiros embusteiros do "Rei Nu", de Andersen, aquela vestimenta perfeita confeccionada com os retalhos invisíveis do 'assim é se lhe parece" (frase que particulariza ainda mais o foco da frase de Protágoras) costurados pela linha ideológica do "como lhe faço parecer".

Mas, eu costumava pensar que seria muito mais fácil sustentar um conceito de saúde física do que mental. Mas hoje admito que os dois são imprecisos. Afinal, é da natureza do organismo desorganizar-se, e saúde seria o que? Tornar o mais longo possível, e menos devido a fatores externos, esse desfazimento, dando a isso o nome de qualidade de vida? Que loucura, do ponto de vista da funcionalidade estaríamos, a partir de um momento, continuamente doentes, pois funcionaríamos cada vez pior.

Mas, a loucura... A loucura parece ser um estado de entrega, quando o o sujeito se cansa da hercúlea tarefa diária de conferir um sentido objetivo à realidade. Basta largar um pouco os cordéis para já ouvir dizer: você está louco?!

Mariana disse...

Prezado Marco, este livro do Cortázar é um achado; na medida em que vou e volto na leitura, no jogo dos capítulos e das possibilidades, percebo a desmontagem de um discurso, de vários discursos. Sequer sei se tem alguma forma de desfecho. O que me parece é que a obra procura, por muitos caminhos, desvestir os erros, investindo-os de outras possibilidades. Há capítulos fantásticos, por assim dizer, e há uma obsessão de fazer a linguagem dizer outra coisa, como se fosse possível encontrá-la em seu estado de éden. Dentre os fragmentos que postei do romance, este, por exemplo, é perfeito acerca dessa não-discursividade:

"Uma das notas aludia suzukianamente à linguagem como uma espécie de exclamação ou grito que vem diretamente da experiência interior. Seguiam-se vários exemplos de diálogos entre mestres e discípulos, completamente incompreensíveis para o ouvido nacional e para toda a lógica dualista e binária." (p.491)

Ou então este outro fragmento, mais longo:

http://thmari.blogspot.com/2011/06/o-jogo-da-amarelinha-um-trecho.html

Eu não consigo entrever um limite onde começa a saúde do corpo e termina a psíquica. É interessante, no enredo do romance, há um trio que se une perigosamente, e esse trio migra de um circo para a administração de um hospício, como se desse na mesma, no fim das contas, já que eles já estavam vivendo acrobática-mente. Entre outras coisas, há aí uma passagem do corpo (circo) para a mente (sanatório), da saúde para a doença, ou do mergulho na doença como uma forma de reencontrar a saúde. Como disse, não sei como tudo vai acabar, mas é interessante uma passagem, logo no início da experiência no hospício, em que um dos acrobatas do trio comenta que os internos eram maus atores, simulavam uma loucura normal, por assim dizer: "Atores ruins, sequer se esforçavam pro parecer alienados decentes diante deles, que haviam lido bem o seu manual de psiquiatria ao alcance de todos." (p.355)

Essa indistinção entre sanidade e loucura se confirma ao longo do relato, assim como o carcereiro é refém do detento. Claro que Machado de Assis não contou do mesmo jeito, mas por isso mesmo que em ambos se percebe a força da criação.

De mais a mais, a palavra saúde, no sentido corrente (e Global) é muito capitalista, a boa forma física, a boa forma mental... quem pode com isso? É um aliciamento constante, um exército de saudáveis adoecidos.

Eu vejo a saúde em outro lugar, difícil. E isso que se chama alma, que coisa mais esquisita, porque também dói, e parece acentuar as dores do corpo:

"tenho a sensação de que meu corpo ficou para trás de mim (...) e que o corpo começa a ir mal, que nos falta ou no sobra (depende). De outro modo: mereceríamos já uma máquina melhor (...) quero dizer outra coisa, quase inacessível; que a 'alma' (o meu eu-não-unhas) é a alma de um corpo que não existe. A alma talvez tenha empurrado o homem para além de sua evolução corporal, mas está cansada de empurra e, agora, segue sozinha para a frente. Dá apenas dois passo. e a alma se quebra, ai, porque o seu verdadeiro corpo não existe e a deixa cair, plaf." (p.459)

Primoroso acerca do descompasso, não?

Abraço.