Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

lados

Do lado de cá há muito o que falar ― falta apenas encontrar o idioma. 

2 comentários:

Menina no Sotão disse...

Bom saber que há o que dizer, mesmo faltando o idioma, é sinal de que há palavras em seu íntimo. Mas fico a imaginar qual idioma fala a pele, a alma, o íntimo. rs
Li certa vez o texto de uma autora sobre Fernando Pessoa que foi justamente sua procura de um idioma que ele criou seus heterenominos. Eu confesso não acreditar nisso totalmente, mas acho interessante toda visão lançada rumo a esse personagem da literatura. rs

bacio

bacio

Mariana disse...

Caríssima Lunna, este lado de cá tem muito de Cortazar, do seu jogo da amarelinha. É um livro do qual se sai outro, sem dúvida, um livro que me impactou muito, tanto que fiz uma sequência de posts.

O livro, em sua multiplicidade, propõe um lado de lá, um lado de cá e outros lados, bem assim: "Do lado de lá", "Do lado de cá", "Outros lados". Meio instintivamente escrevi isso, "do lado de cá" como uma espécie de lugar subjetivo, como dizia minha ex-analista, mas que eu não projeto como algo que está no meu íntimo: pode ser inclusive uma exterioridade que o íntimo não comporte muito.

Lado de cá, no jogo que o livro propõe, é um lado a partir do qual é mais difícil falar, por isso a necessidade de um outro idioma, pois a língua é também uma configuração, o livro joga o tempo todo com isso, explodir a língua. Pode ser a criança, o louco, o não letrado, o latino-americano, o irracional, o mágico, o que escapa à supremacia da linguagem. Pode ser uma exterioridade inclusive em relação à linguagem. Por que não?

O livro de Cortázar é tanto mais surpreendente quanto imprevisível. Mas o mais interessante, e importante, a meu ver, é o que eu disse no início: não se sai o mesmo depois de lê-lo. E então alguma coisa se conseguiu aí, neste cá tão insondável e difícil, porque a própria linguagem pertence a que território?

Desculpe se me estendi, mas é que não queria passar a ideia de uma simples frustração com o interdito. De mais a mais, penso que os livros despertam reações que precisam, também, encontrar um caminho na linguagem, mesmo quando isso não é explicitado. Não sei que idioma falam essas entidades que você nomeia, a alma, a pele, o íntimo, mas creio que muitos já tentaram traduzi-la de alguma forma.

Fernando Pessoa descolonizou a subjetividade das amarras de um único e insondável eu, e isso todos nós lhe devemos.

Abraço.