Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 11 de outubro de 2011

o jardim de veredas que se bifurcam

“O resto é irreal, insignificante. Madden irrompeu, prendeu-me. Fui condenado à forca. Abominavelmente venci: comuniquei a Berlim o secreto nome da cidade que devem atacar. Ontem a bombardearam; li isso nos mesmos jornais em que apresentaram à Inglaterra o enigma de que o sábio sinólogo Stephen Albert morrera assassinado por um desconhecido, Yu Tsun. O Chefe decifrou esse enigma. Sabe que meu problema era indicar (por intermédio do estrépito da guerra) a cidade que se chama Albert e que não achei outro meio a não ser matar uma pessoa com esse nome. Não sabe (ninguém pode saber) minha imensa contrição e cansaço.”

BORGES, Jorge Luis. Obras completas I. São Paulo: Globo, 1998, p.533. Tradução de “O jardim de veredas que se bifurcam”: Carlos Nejar.

2 comentários:

Zé alberto disse...

olá Mariana, encomendei já na Fnac «O Jogo da Amarelinha» de Cortazár, agora fico na expectativa...mas entrei aqui a propósito da inspiração que colhi deste trecho de Borges, pois tento, plantado, quase curvado pelo sono, escrever todas as noites ao computador um "azulejo" para ir completando um "mosaico" narrativo que iniciei há dias...e para hoje estava mesmo em branco de ideias...mas este texto pequenino deu-me cá umas asas para me fazer voar a imaginação. Obrigado.

Abraço.

Mariana disse...

Que bom, Zé Alberto, em vários sentidos. Que bom que o livro já está a caminho (e fico cá pensando na minha responsabilidade, como incitadora da leitura de O jogo da amarelinha, mas é mesmo um livro irresistível), e que bom que o trecho do Borges inspirou sua escrita.

Eu é que agradeço o comentário.

Abraço.