Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

sonhando com o blog

Enquanto durante o dia me angustiam questões as mais díspares, das existenciais à própria escrita, do que for (da tese, deste espaço sobremaneira), à noite sonho com mais um texto de post, inteirinho, buscando forma de expressão. Naturalmente não me lembro de nada do conteúdo do texto, apenas de sua enunciação, entre idas e vindas. Se estiver certa minha analista lacaniana, os sonhos são meus e eu faço (e falo) o que quiser com eles. Então o único remédio, me parece, é escrever. Enquanto escrevo, vou me lembrando que sonhei mais coisas, envolvendo questões da hora, mas recebo apenas flashes de minha memória. É corrente ouvir-se que de tudo que sonhamos, apenas o último sonho fica retido com "clareza". Verdade ou não, é o que se passa comigo, embora eu já tenha conseguido recuperar mais de um. Eu sonho toda noite, e possivelmente toda a noite, quer dizer, a noite inteira. Mas, nesta noite, mais uma vez, só fiquei com o último, que talvez condense os demais. Pelos últimos dias, andei angustiadíssima com a escrita (certamente porque estou a concluir a tese, e as questões que estou tentando elaborar não são nada fáceis), angústia que repercutiu no blog, pois nele dava vazão, e fiz isso durante toda a tese, à tensão que me atravessava. Paradoxalmente, foi o blog que me trouxe a consciência da escrita que tenho hoje. Nele melhorei a própria sintaxe, depurei certos cacoetes de escrita, enfim, encontrei algo que poderia ser chamado de estilo se essa palavra já não fosse convocada para coisas demais. Encontrei um modo próprio de me enunciar, uma coragem, "um jeito". Encontrei algo de meu, em síntese, mas não no sentido usual do pronome implícito no possessivo. E possivelmente o sonho foi isso: a escrita que se tateia, envolvendo uma persona cujo perfil mais típico é a inquietação. Nisso entram os flashes dos outros sonhos, pois que me trazem situações da vida, retalhos que não fazem um colcha. Entre escrita e vida o que existe é que a escrita muda nosso modo de ver a vida, e que mudanças sofridas na vida alteram profundamente a escrita. Um dos interlocutores mais importantes que tive esse ano, do mundo "real", é um colega da filosofia, cujos diálogos, embora eu não concordasse com muita coisa (além das que simplesmente não entendia), tiveram sobre mim efeito similar ao fogo descrito por Fernando Pessoa na sua teoria dos quatro elementos. O primeiro desses diálogos foi absolutamente casual, num trem da supervia. Então esse colega (que veio a se tornar amigo, pela intensidade mesma da interlocução), falou uma coisa muito interessante: que o principal da conversa não tinha sido sua continuidade num fio perfeitamente discernível, mas que os ruídos do trem criavam pausas, interrupções na audição, e entre os ruídos e pausas alguma coisa ia passando. Quer dizer: é entre os ruídos que alguma coisa é dita, passa, afeta, chega ao outro. Num congresso de teoria, me recordo bem de uma fala dizendo que os sonhos são os restos da noite ― entremeados a ruídos, acrescento. Nossos restos da noite têm sempre algo a dizer, embora os ruídos deixem ouvir apenas os restos de algo que deve ter se passado numa cenografia maravilhosa. Ouvi esta noite que a escrita tornou-se inalienável da minha vida.

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