Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 5 de fevereiro de 2011

Bob Dylan: Positively 4th Street (by Bryan Ferry)


A quarta rua terá esquinas? Ou será a quarta pessoa do singular, se, trocados hipoteticamente os papéis  entre o "eu" e o "tu", fosse possível ver que a terceira pessoa não existe? E trocados esses papeis, o "eu" e o "tu" talvez estranhassem tanto o que vissem, que nunca mais tivessem certeza de sua identidade, embora continuassem refugando o tu, ao se referirem a ele (ao tu) quando estivessem com um outro eu, que, quando o eu e tu estão juntos, é ele/ela. "Yes, I wish that for just one time / You could stand inside my shoes / You'd know what a drag it is / To see you". Não precisa ser tão brutal, sertão brutal. Se, como quer a Clarice Lispector em “Ovo e a galinha”, "eu é apenas uma das palavras que se desenham enquanto se atende o telefone, mera tentativa de buscar forma mais adequada”, então o tu, do outro lado, é pura ficção, e o ele/ela de que eventualmente este eu e tu se ocupem não passa de uma projeção. Então está perdida a chance de separar o bem e o mal? Não, porque, mal ou bem, ainda se reconhece a barbárie. Se isso falhar, há sempre um modo de recorrer à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, onde a terceira pessoa está bem caracterizada e defendida. Mas eu (de novo a odiosa palavrinha) prefiro minha privacidade, minha intuição, que às vezes, por força de me fazer entender, chamo de meu anjo da guarda. Quantas vezes o eu apareceu neste breve enunciado? Cinco vezes. É difícil sair do eu, mas há em toda parte, na arte, ocasião de relativizá-lo. 

9 comentários:

Jamil S.P. disse...

Os escritores latinos clássicos, Cícero, exemplo, quase nunca usavam o 'eu'. Quando usavam, era por alguma razão especial, porque queriam destacá-lo etc. Acho legal, porque, ao flexionarmos o verbo, a pessoa já tá la embutida, não precisa explicitá-la ainda mais. É bonita essa 'economia' (os gregos, por sua vez, não tinha pronome indefinido. Pra quê, se ao omitirmos o definido já estaremos indefinindo o substantivo?). Veja, certa vez recebi uma carta de uma amiga, um tanto egocêntrica, tadinha, de duas páginas em que ela usava o 'eu', fiz questão de contar, setenta e tantas vezes; tipo 2x ou 3x a cada linha, ou, toda vez em que colocava o verbo na 1a pes.sing. Horrível, não só pelo estilo, mas por essa verdadeira ânsia de se colocar sempre em destaque.
Mas, enfim, não sei direito por que esteou falando isso; não tem muito aver com seu post, que é bastante interessante.

Mariana disse...

Tem a ver sim, bastante, e obrigada pelo interesse e por fazer aportar aqui conhecimentos que não tenho, como a referência a Cícero e à gramática grega. A questão dos pronomes é bem interessante, vou pesquisar isso. Quanto à carta da sua amiga, o indicador que você encontrou é ótimo: quanto mais inflacionado o eu, maior o tom de dramalhão, a ânsia de se colocar em destaque, como você diz bem.

Quando o estudo da gramática adquire essa conotação, a reflexão sobre as pessoas do discurso, as classes gramaticais e sua ação performática no enunciado, torna-se muito produtiva.

Obrigada pelo comentário :)

Luiz disse...

Gostei bastante disso: "É difícil sair do eu, mas há em toda parte, na arte, ocasião de relativizá-lo". Eu diria que a arte é um forma de deslocar o eu, mas de reencontrá-lo de outro modo também, talvez, de inventá-lo. Acho "eu" (rs) umas das palavras mais legais, gosto de usar. Gosto dos escritores que a usaram. Quem lê a Clarice sabe exatamente do que se trata. Um abraço!

Mariana disse...

"Quem lê a Clarice sabe exatamente do que se trata". Outro abraço, de um eu que se dirige a um tu, também chamado de você.

Jamil S.P. disse...

Esqueci de dizer: muito bonita a versão do Bryan Ferry!
Eu estava com o pronome na cabeça, acabei me equivocando, na verdade era o artigo indefinido que os gregos não tinham.
Acho que o estudo da gramática deve trazer consigo especulações filosóficas, psicológicas, etc, se não se torna incompreensível, caindo-se num formalismo estéril bastante chato.
Obrigado :)

Mariana disse...

Bem que eu achei estranho :) pois não temos pronomes definidos, só a esdrúxula comunidade dos indefinidos. Agora assim, falando dos artigos, definidos e indefinidos, ficou mais plausível. Preciso estudar mais essas coisas. Tenho os olhos muito voltados para a literatura, mas sem um bom conhecimento da língua o que há de melhor na literatura se perde.

E é isso, estudar a gramática só vale a pena quando podemos extrair, dela, as implicações filosóficas, existenciais, de se dizer uma coisa desta ou daquela maneira. Nem sei se a Análise do Discurso dá conta, mesmo porque há as linhas francesa e americana, que neste como em outros campos parecem não se entender muito.

O Bryan Ferry tem sensibilidade para as canções do Dylan. Descobri-o (e o Roxy Music) muito por acaso, nessa sequência linda, um filme que você deve ter assistido, "Reflexos da Inocência":

http://www.youtube.com/watch?v=v20hVOo3jGc

A canção se chama "If there is something":

http://www.youtube.com/watch?v=B9tFGVTUjCw

josépacheco disse...

o post é extraordinário, e a conversa filosófico-gramatical não fica atrás. uma amiga dizia, referindo-se a outra: «ela coloca-se sempre no centro, e eu ponho-me sempre nos lados». por aqui notei que, na virtualidade do blogue, é um pouco difícil sairmos de nós: num post, há tempo, referia um post de outro blogue em que, por sua vez, se referia um post ainda anterior... do meu próprio blogue! e só reparei nisso porque o Jamil, precisamente, foi descobrir esse post meu antigo (em que por sua vez o referia) seguindo os pontos do círculo. e no entanto esta conversa mostra que não é só isso. há de facto chegar ao outro, receber do outro - aliás, Mariana é exímia nessa abertura e nessa comunicação...

Jamil S.P. disse...

Também sou fascinado pela nossa língua portuguesa e Literatura. Você tem toda razão, a fim de ampliar e aprofundar nosso conhecimento nessas áreas, é imprescindível o contínuo estudo da gramática, filologia, etimologia, etc. A quem escreve também, para que possa manejar mais recursos estilísticos e tal. Nesse sentido, o pouco que sei de latim e grego antigo é de uma importância capital.

Não assisti ainda esse filme não. Obrigado por mais essa dica, tá anotada.

Mariana disse...

José Pacheco, me ocorreu esse trecho final do conto "O imortal": "Quando se aproxima o fim, já não restam imagens da lembrança, restam só palavras. Não é estranho que o tempo tenha confundido as que alguma vez me representaram com as que foram símbolos do destino de quem me acompanhou, por tantos séculos. Eu fui Homero, em breve serie Ninguém, como Ulisses; em breve, serei todos: estarei morto. [...] Palavras, palavras deslocadas e mutiladas, palavras de outros, foi a pobre esmola que lhe deixaram as horas e os séculos." (Trad. Cecília Ingenieros, Obra Completa, vol. 1, Editora Globo, p. 605-606).

Fui pegando a quarta rua do Dylan e as palavras foram saindo, me apropriando de coisas dos outros. Muito obrigada pelo elogio, foi só uma tentativa de dar expressão à confusão que é essa coisa das pessoas do discurso, que a gramática ensina como um transparência cristalina, sem maiores desconfianças do que seja isso. Tentei tatear a coisa.

Jamil, no que você diz sobre o imprescindível conhecimento da língua, há um trecho precioso do Graciliano Ramos a esse respeito, aqui postado:

http://thmari.blogspot.com/2010/09/graciliano-ramos-nao-ha-talento-que.html