Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

uma criança muda

Hoje, na sessão de análise, houve algo diferente. Havia uma criança chorando. A criança chorava porque havia sido traída, enganada. Eu perguntei à analista se ela via o susto em meus olhos. Foi quando a criança começou a chorar. Habitando um corpo que deveria ser, com todas as letras, de mulher, a criança não entendeu muito bem o que lhe aconteceu na infância, e o corpo da mulher, num paradoxo, guardou em seus recessos algo dessa criança. Teme perdê-la, como se fosse perder para sempre a chave de um segredo. O paradoxo é este: o corpo é de mulher, mas as questões remetem à infância. Algo falhou. E então é como se o fardo fosse pesado demais para o corpo que foi sempre magro. Não é uma criança chorando porque foi contrariada. É uma criança, pulsando no corpo de uma mulher adulta, dando um brado de socorro por não suportar o nível e o grau de questões que, repentinamente, no emergir da vida adulta, se depositaram sobre seus ombros. 

Não sei se algum dia conseguirei ser a mulher que meu corpo sugere. Tudo o que eu sempre quis foi entender minha vida. Está lá, na Carta ao pai, de Kafka, a frase decisiva da minha existência: a preocupação com a afirmação espiritual da existência tornando tudo o mais indiferente. Assim como a afirmação espiritual da existência está no centro das preocupações do filho angustiado, essa frase, mais do que o próprio livro, está no centro da minha angústia, por ter me caído no colo naquele momento em que a vida se decide, se define. Eu sou cheia de desvãos, de esquinas, de passos incertos. Quando comecei a sonhar este mundo que hoje habito, eu era toda esperança, sonho, confiança, sobretudo em mim mesma. Hoje eu sou uma interrogação que olha com insistência para trás, porque lá, no passado, na infância, está alguma coisa muito importante, meu enigma. 

5 comentários:

Zé alberto disse...

olá,
Mariana, antes de ir lavar a loiça aqui do café e pensar o que vai ser o almoço, atender os clientes que parecem ratitos encolhidos pelo frio tão castigador, deu-me para me recordar - suscitado pelo seu post - dum filme sul-coreano que me estremeceu da cabeça aos pés, faz agora um ano, quando o gravei a partir do arquivo do My One Thousand Movies.

http://myonethousandmovies.blogspot.com/search?q=o+bordel+do+lago

A esse filme, vejo-o como uma simbologia do DESEJO DO REGRESSO AO VENTRE MATERNO...e tanto me tocou, pela identificação que o meu inconsciente detectou com a narrativa que aí se desenrolava.Lembro-me às vezes que a nossa natural busca de conforto na forma como equipamos o nosso lar, é uma reminiscência da memória do ventre materno, desejo de retorno.

Mariana, falei nesse filme e deixei-lhe o link, mas...é um filme "cruel". Se o visionar, esteja preparada para isso.

Bem, os meus clientes estão a chegar, como gatitos e ratitos, uns atrás dos outros :)
Lá tenho que ir pôr ordem na casa :)

abraço!

Mariana disse...

Zé Alberto, muito obrigada pelo comentário e pela indicação.

A infância me parece uma espécie de paraíso perdido: há um intervalo em que se é feliz, sem saber o que é isso, o que é felicidade.

Para mim, é uma questão de inocência mesmo. Então cai-se no mito bíblico, de Adão e Eva, que os românticos recriaram para dizer que na arte seria possível reencontrar alguma coisa dessa completude perdida.

Mas isso são especulações: por incrível que pareça, eu acho que alguma forma de inocência é possível.

Em tempo: como você me advertiu que o filme é cruel, vou ponderar bastante. Quando assisti "Old Boy" (já viu?), vi coisas que beiravam o insuportável.

Abraço.

Luiz disse...

Li e reli este texto hoje. O que falar? Já foi dito muito, mais que isso foi dito de uma forma bonita. Aproveitei para baixar o filme sugerido pelo Zé porque adoro o diretor, mas o cinema dele realmente é um soco no estômago, precisa ser visto num dia muito tranquilo. Um beijo!

Mariana disse...

Luiz, sempre é bom ouvir você.

Depois você faz um post sobre um fime, eu vou lá e comento (rs).

Beijo!

Mariana disse...

Um P.S. Sei que alguns textos meus ficam bem punks, mas a intenção inicial do blog, de ser um desdobramento do trabalho de análise (o elaborar questões), persiste, não obstante as várias mudanças de configuração e identidade por que o blog passou.

Se o Riobaldo diz que não perde ocasião de religião, e bebe água de toda fonte, eu cá, na minha religião da palavra, não perco ocasião de me exercer em algo que é uma verdadeira depuração. E agradeço a leitura atenta e interessada de quem me traz essa coisa que gosto tanto, o diálogo.