Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Clarice Lispector: fragmentos


Antes era perfeito
Ter nascido me estragou a saúde.

As negociatas
Depois que descobri em mim mesma como é que se pensa, fazendo comigo mesma negociatas, nunca mais pude acreditar no pensamento dos outros.

Por discrição
Deus lhe deu inúmeros pequenos dons que ele não usou nem desenvolveu por receio de ser um homem completo e sem pudor.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.408.

2 comentários:

Luiz disse...

Engraçado, ontem foi um dia difícil, aí um pouco antes de dormir, peguei um monte de livro pra ler,e, acabei decidindo ler um pouco A descoberta do mundo. Peguei o livro e Suspirei, dizendo em silêncio: SÓ VOCÊ CLARICE PARA ME AJUDAR AGORA. Hoje, acordo e a primeira coisa que vejo no seu blog é a Clarice. Será que v. também a leu ontem? Beijos!

Mariana disse...

Fui a ela no mesmo movimento que te levou. Clarice é dia sim, o outro também, depois dez dias sem.

Beijos!