Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

conversa no bar, a propósito de uma porção de fritas

Pior que os alimentos cheios de óleo são as palavras gordurosas, porque a desintoxicação é mais difícil. 

6 comentários:

Zé alberto disse...

:) sim, absolutamente de acordo!

abraço!

Mariana disse...

Felizmente, há modos de desintoxicar-se delas, embora o fígado nem sempre dê conta no momento.

Abraço!

josépacheco disse...

uma palavra gordurosa é uma palavra com gordura moral, com gordura estética? com uma significação gordurosa, uma pronunciação gordurosa, ou desajustada no texto, ou um pouco de tudo isso?

Mariana disse...

Nem sei mais se fui eu ou meu amigo que falou, peguei a deixa e postei: o contexto imediato era uma porção de fritas intragável, de tão gordurosa.

Acho que falávamos de discursos ocos, que levam de nenhum lugar a lugar nenhum, aquilo que beira a prolixidade, beirando, por afinidade fônica, a lata de lixo. Muita gordura moral, boas intenções a dar e vender, pouco (ou quase nenhum) sentido do estético, eticamente inúteis ou nocivas. Enorme distância entre teoria e prática. Um falar por falar, talvez. Um falar (dizer) formatado, cheio de clichês: isso, acho que cheguei na coisa: clichê, clichê, clichê... Como tal, nocivas, como a própria gordura dos alimentos. A não ser que se desenvolva uma espécie de filtro ou acústica interna, para não deixar essas palavras inflacionadas de sentido, e sentidos problemáticos, nos penetrar ou atravessar.

P.S. Mas falávamos, creio, no fundo, no uso irresponsável e desleixado da linguagem, sem prestar atenção ao que se diz.

josépacheco disse...

extraordinário. tem toda a razão. e mesmo com filtro, às vezes, me surpreendo deixando escapar palavras engorduradas, com a visão cheia de gordura que lhes subjaz.

Mariana disse...

todos nós, me parece. a questão é perceber.