Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

hoje na aula

Vai que me empolguei numa turma hoje... 6º ano. Nunca pensei que pudesse gostar tanto de trabalhar com esse público. Há alguma coisa de muito interessante nessa idade, um frescor inconfundível. Fui falar sobre linguagem, e aí tangenciei a questão da diferença entre o falar humano, a língua, e o que se chama de linguagem dos animais. Isso porque o 6º ano percorre vários tipos de narrativas com animais personificados. Então comecei a desenvolver um raciocínio que me levou a isso: a evolução da capacidade de emitir sons articulados a partir de grunhidos ancestrais foi algo que se fez contra as leis da biologia; então nossos ancestrais, ao assumirem a postura bípede, não só liberaram as mãos para as mais diferentes atividades como a própria postura bípede levou ao aguçamento da visão: dois fatores decisivos para o excepcional desenvolvimento alcançado pelo nosso cérebro, e a própria postura bípede, junto a esses outros fatores, colocou os ancestrais do homem (já seria o homem?) frente a frente, de forma que o desenvolvimento da linguagem se impôs. Aí eu disse que nós tínhamos conquistado muito: as mãos, a visão, o excepcional desenvolvimento do cérebro e a capacidade de emitir sons articulados que fazem sentido, e que isso era muito precioso, um tesouro a nosso dispor. Enquanto falava, acreditava muito no que dizia (apesar do componente de ficção/imaginação em torno da evolução biológica do homem), como se dissesse: olhem a riqueza que vocês têm, que nós temos: nós temos a linguagem (e concomitantemente levava a mão à garganta, como se ali estivesse a "fonte" da linguagem). Mas usamos isso também para o mal: nós usamos mal o que temos de bom, eu disse. Eu queria dizer que eles tinham em mãos algo muito precioso, mas falava isso para mim também.

2 comentários:

Luiz disse...

Quando terminei de defender meu mestrado li um texto do Bosi em que ele falava de um mestre e da importância de se ser mestre, claro que ser mestre significa muitoi mais que o título. Fiquei muito emocionado, já que ele tratava a palavra com muito carinho e inclusive dizia que ser mestre é mais que ser doutor. De algum modo eu fiquei muito feliz. Sempre que leio v. falando desses meninos crio uma imagem louca na minha cabeça. Aparece um crítica de literatura, uma mulher magra e refinada, com um olhar agudo, mas ela aparece como uma mestre, que ensina e que possui a habilidade de transmitir conhecimentos. Em breve v. vai ser mais uma doutora, mas por certo não vai perder essa possibilidade/maneira de ser mestre. Um beijo!

Mariana disse...

!!!!!!!!

:)