Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

saúde psíquica

Uma amiga faz-me um grande favor. Escrevi-lhe perguntando por sua saúde e ela respondeu sucintamente, acrescentando que estava meio de mau humor. Achei formidável: o direito ao mau humor. Respondi-lhe um pouco depois que ela tinha me dado uma ótima ideia: eu nunca me permiti dizer: hoje não, estou de mau humor. Até esse dia. Há outras coisas, no entanto, que me permito amiúde. Não, isso aqui não é uma ilha ornada por um belo par de olhos azuis.

12 comentários:

Jamil S.P. disse...

Até o mar azul, quase sempre tão calmo, tem seus dias de mau humor, dias de tempestades e tsunamis. É um direito natural de toda criatura.

Mariana disse...

E não tenho mesmo vocação para "operário-padrão".

Jamil S.P. disse...

Nossa, você me fez lembrar de uma antiga propaganda na TV do tal 'operário-padrão', isso foi há séculos... Ele era apresentado como uma espécie de 'bom pai de família' ou de 'homem-médio' das fábricas; mutatis mutandis, é o Pateta neste vídeo, que traduziram por 'homem-comum', surtando sob a fúria e caos do trânsito http://www.youtube.com/watch?v=RMZ3bsrtJZ0

Mariana disse...

Naquela época a gente nem sonhava que o operário-padrão deixasse de prescindir de mídia e apologia: as próprias transformações do capitalismo fizeram dele uma figura pra lá de comum, irritantantemente comum, porque obediente demais.

Adorei o vídeo do Pateta, a mediocridade do homem comum que se acha alguma coisa porque tem um carro. E, sim, é citado um verso do Dylan que adoro, "fools rush in where angels fear to tread" (de Jokerman), que não teve nada de operário-padrão ou homem comum.

http://www.youtube.com/watch?v=-CqYYtXG9n4

Ainda na esteira do homem-comum, como não lembrar de "Táxi driver"?

Zé alberto disse...

Estar sempre bem, eu acho, é fazer frete ao "políticamente" correcto,como se diz por aqui.
Não expressar nosso lamento, nossa dor da ocasião, é ter medo de que os outros se afastem...mas não tenhamos medo disso, vivamos com a nossa "canção". Dêmos o melhor da nossa musica interior...uma vezes alegre como um "samba", outras aveludada, visceral e chorona como um "blues"... pois sempre alguém se identificará com ela.

Esta canção que aqui "cantei" é apenas a formulação de um desejo, apenas uma luva que se ajusta à minha mão, não querendo dizer que se ajuste a mais alguma.
É um lirismo que me faz lembrar a Judy Garland cantando, arrebatada, "Somewhere over the Rainbow".

abraço!

Jamil S.P. disse...

Gostei, 'irritantemente comum', ótimo isso.
Ai, você é uma Bob Dylan maníaca, no bom sentido, claro; impressionante como conhece tudo do homem, chega a ser irritante! (risos)
Muito bem lembrado, o Travis é o homem-comum que uma hora é possuído pela fera selvagem dentro dele, aos poucos alimentada pelo sistema. A frase é meio clichê, perdoe-me, mas acho que é por aí.

Mariana disse...

Zé Alberto, gostei da acuidade com que você expressou o que tentei dizer: vivamos com a nossa "canção". A gente acaba descobrindo qual é. É um alívio poder permitir-se. Sempre alguém se identificará, e vai valorizar isso de alguma forma.

Jamil, achou que vou aproveitar sua sugestão e criar um substantivo novo, dylanmania (rsrs). Minha música tem muito do Dylan, mas não só dele, e é uma coisa meio de resistência, pois se eu for dar bandeira de toda a minha rebeldia, bem, há hierarquias no mundo... Então hoje pensei algo assim: que o melhor que temos a oferecer aos outros, e a nós mesmos, está naquilo que temos de diferente. Nossa singularidade.

Me parece a única aposta possível, e foi numa dessas voltas que eu me apaixonei pelo Dylan: ele é a identidade mais forte dos 60: não morreu de drogas como a santíssima trindade dos Jotas: Janis Joplin, Jimmy Hendrix e Jim Morrisson; cantou e seguiu sozinho, embora formasse parcerias e tivesse banda, ao contrário dos Beatles e dos Stones; criou sozinho coisas geniais, que encontraram muitos intérpretes; definiu um estilo único, que é e não é rock'n roll.

Ai, desculpa se ficou pedante minha fala.

Resistir, conseguir descobrir qual é a nossa canção.

Jamil S.P. disse...

Pas de problème, para uma dylanmaníaca fervorosa, achei que foi até moderada. ;)

josépacheco disse...

eu gosto muito da joplin, do hendrix e do morrisson, dos beatles e dos stones. tinha de dizer isto, embora a mariana não diga que não gosta deles e embora, sobretudo, compreenda perfeitamente a razão da comparação que faz. mas morrisson, por exemplo, é-me muitas vezes arrepiante.

Mariana disse...

Mexer com essa turma da pesada é incorrer em parcialidades, admito: pois eles magnetizam paixões, chamam para a identificação. Por exemplo, a interpretação do Doors para "Light My Fire" me parece única, impossível de ser repetida (está inclusive linkada na minha trilha sonora).

http://www.youtube.com/watch?v=vw40NMa_0RM&feature=related

Performance fabulosa. Mas tem uma densidade que me sufoca. Então eu nunca consegui ouvir os três Jotas seguidamente, pois eles excedem, transbordam. Não sei explicar.

E é claro que a minha afirmação sobre o Dylan pode ser apenas a fala leviana de uma fã.

Renata disse...

Deixa-me de bom humor saber que meu mau humor alegra o dia de alguém, rs.

Mariana disse...

Deixa-me de ótimo humor saber que você passou por aqui... alegrando o meu fim de dia :)