Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

chuva

E então chove e faz frio ― o que percebo deveras. Costuma ser assim nas proximidades do feriado de finados. Não à toa o finado Brás Cubas fez chover no seu enterro. Há exato um ano atrás tanta coisa se deu, tanto mudou de repente, inesperadamente. Um aluno hoje me perguntou a pertinência de um dia dedicado aos mortos. Disse-lhe que valia mais para nós, para nos lembrar de nossa condição. A conjunção da chuva com Brás Cubas e a véspera do feriado avivou a lembrança de coisas já distantes, insignificantes ― e é um alívio percebê-las assim, despidas de importância, como naquele conto de Drummond cujo título agora me escapa. Aliás, hoje é Dia D, dia dele, de Drummond. Lembrar é apenas um acidente da memória, um modo de perceber que, como o avião que corta agora o céu acima das nuvens, passou o tempo, e junto o que ele engendrou. O tempo pairando acima das nuvens, lenitivo da alma que mandou uma chuva para eu me lembrar de tanta coisa, lembrar que as coisas mudam de lugar, como a água da chuva que cai. 

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