Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Dante Milano

ENUMERAÇÃO

Há alguém que dê à vida
Toda a atenção devida?
Há um sol que olha espantado,
Um grande mar parado,
Um vento sem destino,
Um presente não presente,
O espaço que não passa,
As luzes que são cegas,
Um pântano estrelado,
Uma pedra que pensa,
A poeira que é ouro.
Há um monstro que sorri,
Um pássaro que é príncipe,
O oculto no evidente,
As sombras que sã gente,
A gente que é ninguém,
O olhar desconhecido,
A prece não ouvida,
O andarilho deitado,
Uma flor ofendida,
Um boi desiludido,
Um cão desorientado,
Objetos escondidos,
Coisas aparecidas,
E as desaparecidas
Para sempre esquecidas.

MILANO, Dante. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Núcleo Editorial da UERJ, 1979, p.195.

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