Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 16 de outubro de 2011

letras

Tenho um amigo que, volta e meia, por e-mail, me chama de Marina ― o que me agrada, porque além de ter uma suavidade oscilando nas letras, etimologicamente é puro mar. Já quando outra amiga me escreve, noto que o contato foi salvo como Maraiana. Um dia resolvi perguntar e ela disse que quando percebeu a troca das vogais quis deixar, porque lhe pareceu que o nome assim ganhava uma nova beleza, ou dimensão. Assenti. As letras e suas incríveis possibilidades.

4 comentários:

Luiz disse...

Ri alto quando li seu post. Fui verificar no e-mail e tratava-se de mim, se v. não tivesse falado nem ia sonhar que continuo esquecendo de colocar o outro "a" em seu devido lugar. Questão de digitação, juro. Bjos, Mari(a)na.

Mariana disse...

As letras são fascinantes, não é mesmo? Acho interessante elas poderem sair do lugar, dando espaço para outros dizeres. Mariana e Marina, quem poderá dizer qual é mais lindo?

Beijos.

Menina no Sotão disse...

Sim, as letras são fascinantes, mas no meu caso ainda não consegui evoluir o bastante para ficar feliz quando me chamam de Luana, ou Luma. Respiro fundo e assino no rodapé LUNNA. rs

A Lua de onde deriva o meu nome deve rir por mim...

bacio

Mariana disse...

Mas nós temos a sorte de ter nomes passíveis de anagramas, dessas trocas. Olha o que diz o dicionário: transposição de letras de palavra ou frase para formar outra palavra ou frase diferente (Natércia, de Caterina; amor, de Roma; Célia, de Alice etc.). Há nomes que não facultam isso. Meu nome não deriva do mar, mas gosto de ter o mar nele, cujas marés, aliás, sofrem efeito da lua.

Depois me lembrei de um post que escrevi sobre um conto de Guimarães Rosa, "Desenredo", explorando a questão do cambiante nome da personagem feminina. O texto está meio enferrujadinho, como acho que fica tudo que escrevi, mas vou deixar aqui sem alterações:

"Querendo ou não, o nome nos diz. Em torno do nome, vai-se criando uma espécie de nebulosa, em que gravitam apelidos, sensações, fotografias, retratos mentais, flagrantes da memória e uma movente identidade. Na literatura não poderia ser diferente. Uma das personagens mais famosas de Joyce tem um nome belíssimo, Anna Livia Plurabelle. Apaixonei-me pelo prenome, tranquilamente o aceitaria como meu. E, conforme já foi comentado pela crítica, a publicação, pelos irmãos Campos, do Panorama de Finnegans Wake teria influenciado a fatura de Tutaméia, de Guimarães Rosa, o que se faz notar no conto 'Desenredo'. A personagem feminina domina a trama, chamando-se Livíria, Rivília ou Irvília, conforme diz o narrador aos seus ouvintes. Nos jogos linguístico aparecem, de imediato, Lívia, River e Irlanda, além de outras possibilidades — lírio, vil, rivalidade e, por onomástica, Virília, nome que fica subentendido, com sua conotação tanto de sexualidade quando de aspecto vil, maldade, que a mulher traria associado a isso, o que remete à Eva. Mas, como se trata de um 'desenredo', Eva, aqui, é finalmente perdoada. Não deixa de aparecer como Eva, portanto como culpada — 'Com elas quem pode, porém? Foi Adão dormir, e Eva nascer.' (João Guimarães Rosa. Tutaméia: terceiras estórias. 8. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.72). Mas sua culpa é redimida. Haverá outro jeito de desenredar essa história?"

Abraço.