Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 16 de outubro de 2011

ilustração de Poty para Augusto Matraga

Ilustração da 13ª edição de Sagarana, editora José Olympio

Augusto Matraga é marcado por seu inimigo, na descida ao inferno que quase o atirou à morte ― o que não deixa de ser uma morte simbólica ―, com um ferro incandescente contendo um triângulo inscrito numa circunferência. Walnice Nogueira Galvão, no ensaio "Matraga: sua marca" (visualização parcial), observa:

“Muitos e muitos séculos mais tarde, uma personagem de ficção, o Matraga, também saberá transformar sua marca de ignomínia em marca de pertença. Ferrado como rês no quarto traseiro com ferro de ferrar gado, reservado a animal e propriedade, trilhará o duro caminho da penitência e cumprirá em seu destino o sinal numinoso ― triângulo em circunferência ― com que foi marcado. Mas antes de chegar lá, e praticamente a meio caminho, a questão da marca reaparece, com enorme força, no surgimento do fenômeno da estigmatização.” (p.64)

“As duas figuras geométricas, circunferência e triângulo, têm ao mesmo tempo um estatuto igual e oposto. Igual, porque ambas são, a mesmo título, figuras primárias da Geometria Plana. Oposto porque a circunferência, constituída por um número infinito de pontos, enquanto círculo tem tendencialmente um número infinito de lados, e o triângulo o número mínimo possível de lados para constituir uma figura geométrica. Esta igualdade na oposição, e oposição na igualdade, evidentemente não poderia passar despercebida e há séculos perturba a mente humana.” (p.72)

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