Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 16 de outubro de 2011

Dora Ferreira da Silva

ESPERANÇA

Pousa num golpe o pássaro do verde
súbito nascido de seu voo.
Ecoa o telegrama em nosso peito.
Conferimos as poucas letras
de tão longe vindas
de tão fundo oriundas
vindas e chegadas
a um porto de partida.
Apagadas as letras
soletramos a sós
o sol
da comunhão com tudo.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.105.

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