Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 22 de outubro de 2011

obedecer desobedecer

Você obedece, instintivamente obedece, até que um dia não concorda, aprende a não concordar, desobedece, arca com a desobediência até não poder mais, volta a obedecer com a sensação de ser um desobediente rendido, obediente tendo latente em si a desobediência, experimenta de novo a desobediência, sente frio, sente dor, percebe que os limites testam o próprio corpo, a alma é agreste mas o corpo é civil, deseja então um outro corpo, um corpo apto para a desobediência, mas percebe que ce n’est pas possible, é com esse pobre e frágil corpo que terá que se haver, sabendo que as duas coisas, obediência e desobediência, têm endereço certo no corpo, pois que precisam dele para sustentar seu movimento. 

2 comentários:

sonia disse...

Hoje sou rebelde por natureza. Já obedeci muito, mas não é da minha natureza aceitar, sem discutir, qualquer atitude que me seja imposta ou até mesmo sugerida, se eu não refletir a respeito e aceitar por opção própria.
Para obedecer, eu precisaria sofrer da Síndrome do Devedor, que é uma doença da qual sofre nossa presidente, Dilma Roussef. Explico: quando a pessoa se sente extremamente grata a alguém, por algum grande favor ou benefício prestado, sente-se impotente para tomar qualquer decisão que desagrade a seu benfeitor. Nossa presidente será capaz de ver cair um a um de seus ministros, mas nunca terá "peito" para varrer, por sua conta e risco, todo o ministério do tio lulla e colocar um novinho em folha a seu gosto.

Mariana disse...

Sônia, querida, primeiramente obrigada pelos comentários, sacudindo um pouco o marasmo em que parece se encontrar este blog, cuja obstinação em ir sempre em frente, contudo, parece alimentar-se de si mesma. Sou uma desobediente que obedece apenas por disfarce.

Dito isso, o tema em tela é dos mais sedutores e intrigantes: como nós desobedecemos, como é essa coisa da obediência. O meu primeiro movimento foi obedecer (até nascer não deixa de ser uma forma de fazê-lo), me lembro de ter sido uma criança dócil, inclusive, uma mansidão muito grande.

Hoje, qualquer coisa que pareça uma forma de enquadramento eu me escudo toda. Tenho altas contendas com minha analista por conta disso, porque acabo vendo aquilo como uma tentativa de domesticação, mas ao mesmo tempo, pelo menos por enquanto, não consigo prescindir daquela interlocução, como não consigo prescindir do blog e seus posts que são lampejos de um movimento incessante em mim.

Quando alguém chega com o célebre "posso te dar um conselho?" eu já estou voando longe. Primeiro porque não pedi, apenas me abri ao diálogo; segundo porque isso só funciona em novelas. Há milhares de clichês em ação por aí, mas a vida, o vivo da vida, só quem está vivendo pode saber. Acho até que o impulso da desobediência vem desse rebaixamento de tudo, dos diálogos, das discussões, de tudo poder virar um clichê traduzível numa fórmula.

No entanto, e pegando a deixa da política que você lançou, os novos continuam obedecendo aos antigos, mesmo quanto parecem querer fazer diferença. Os assassinos do ex-ditador líbio diferem dele em que, se usaram os mesmos métodos truculentos do ditador abatido sumariamente? São fluxos, correntes que atravessam aqueles corpos, compelindo-os à lei do talião, essa prisão tão antiga quanto a Mesopotâmia, uma geografia meio fantasmática onde a democracia é um mito que faz rir e que paira mais do que gostaria de supor a vã filosofia norte-americana (aliás tão truculenta quanto) sobre os territórios onde os acontecimentos em tela estão se desenrolando.

Desobedecer a alguém empregando seus métodos não é uma forma sutil de continuar obedecendo-o, perpetuando-o?