Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 22 de outubro de 2011

e. e. cummings

Não sei se consigo ler e. e. cumings: o próprio conceito de leitura é distorcido diante de suas intercalações e cortes abruptos (tmese, conforme Augusto de Campos). Mas isso não impede de apreciar a beleza de suas criações, ou esperar uma nova rodada para que o obscuro se dê ao entendimento.

A música é de John Cage e a voz de Robert Wyatt (aqui).

4 comentários:

Professor Maurício Fernandes da Cunha disse...

Cara Mariana,

Os urgentes compromissos de término de bimestre (e de ano) me impedem de ser um pouco mais constante na visita ao seu blog, de modo que sempre marco o último post que li e dali continuo até chegar ao mais recente, com o prazer habitual.
Acho que a primeira vez que soube de e.e. Cummings foi quando assisti ao filme “Hannah e suas irmãs”, do Woody Allen, no qual a personagem de Barbara Hershey recita “nobody, not even the rain, has such small hands”. Poema belíssimo! Somente tempos depois vim a conhecer a tradução do Augusto de Campos, mas, sinceramente, preferi o verso final da forma que o conheci da primeira vez “ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequeninas”; mera escolha lexical, mas senti que o uso do adjetivo diminutivo deixou ainda mais impactante o verso final. Aliás, que força têm certos poemas quando recitados! Arte que não requer explicação, basta o encantamento.

Um forte abraço!

nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

(e.e. Cummings – tradução de Augusto de Campos)

Mariana disse...

Prezado Maurício, notei-lhe a ausência, mas sei que as pessoas são ocupadas, têm compromissos. Mas o que queria mesmo dizer é que, para além da dificuldade que encontro em ler Cummings, este poema me foi totalmente surpreendente e inesperado: creio não ter esbarrado nele na coletânea do Augusto de Campos que trago aqui. Tive vontade mesmo de voltar a assistir Woody Allen. Explico-me.

Há mais ou menos três meses venho lutando com um problema misterioso no olho direito, que me tirou a paz e até mesmo a vontade de estar aqui na blogosfera, tanto que cheguei a fazer um post dizendo que ia parar, quando você escreveu sobre os silenciosos leitores e eu vi que não era tão simples assim, que eu já tinha uma relação forte com o blog, a escrita, precisava dela para a minha saúde.

Pois bem, este problema parece estar cedendo, parece que está indo com o mesmo mistério com que veio (e por isso consigo falar dele). E então de repente me chega esta beleza de poema, falando de olhos e fragilidade e um imponderável que só mesmo a poesia diz, e que pede uma leitura que traduza os signos para além de qualquer experiência. Mas eles esbarram na experiência também, pois este problema nos olhos me desnorteou como poucas coisas na vida, e me deu uma dimensão mais evidente da fragilidade do que é humano, do que é corpo, o corpo ligado ao espírito por conexões insondáveis. Não sabia que gostava tanto assim dos meus olhos, que eles me eram tão importantes. Muito do que escrevi, elipticamente, falava disso, porque quando a coisa nos ultrapassa mesmo falar é uma interdição. Mas, enfim, este poema fez com que eu revisse toda a história, na qual ainda me encontro, e se consigo falar disso, romper o silêncio que os próprios olhos me impuseram, é porque sinto-os voltando, sinto a saúde deles de volta, e há poucas experiências como esta, sentir-se de posse novamente da saúde.

Desculpe o súbito jorro em tom de confissão mas, repito: pouca coisa me desnorteou como ver abalada a saúde dos meus olhos, e há nisso conexões sutis que me escapam, que custam horas de análise (e afinal problemas todos têm). Mas é que os olhos, para quem leu "O espelho" de Guimarães Rosa, são muito: devolvem o mundo como promessa. E sequer sei se estou conseguindo me fazer entender, mas para mim está tudo muito misturado, como diz aquela outra personagem de Guimarães Rosa.

Em parêntese: acho que você conhece aquele conto do Poe, "Um homem na multidão", cujo narrador é um homem que está se recuperando de um problema de saúde, e que encontra grande satisfação nisso, em sentir a saúde voltando.

Muito obrigada por este poema e pelo comentário.

Forte abraço.

Professor Maurício Fernandes da Cunha disse...

Cara Mariana,

Perdoe-me a displicente ausência. Fato é que tem tanta coisa legal pra se ler no seu blog que dou graças que minhas férias estão chegando. Li muito sobre Poe, mas não me lembro desse conto. Deu vontade de lê-lo e já irei colocar na fila. E entendo perfeitamente as implicações acerca da saúde. Tempos atrás também me encontrei livre de um problema de saúde e fiquei extremamente aliviado. E fico feliz que seus olhos estejam voltando. Raduan Nassar quem dizia que “os olhos são a candeia do corpo”.

Em tempo, fiquei encantado com um poema chamado “Ballet”, de um poeta português chamado António Gedeão. Coloquei no meu blog, quando puder, dê uma olhada:

http://veredasdalingua.blogspot.com/2011/12/antonio-gedeao-poemas.html

Forte abraço, Mariana!

Mariana disse...

Prezado Maurício, também estou na correria de final de ano e entendo a falta de tempo. Legal saber que você continuará aparecendo, seus comentários são sempre bem-vindos.

Olha, eu li muita coisa do Poe, dispersa. O último conto dele que reli foi o magistral "O poço e o pêndulo". Neste blog há várias informações sobre as traduções brasileiras de Poe:

http://eapoebrasil.blogspot.com/

Retificando: o título do conto dele que citei é "O homem da multidão".

Falando em Poe, saúde não era bem o departamento dele, como aliás dos românticos de maneira geral.

Vou passar no seu blog e conferir o poema. Obrigada pela indicação.

Abraço fraterno.