Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Dora Ferreira da Silva

AS FORMAS PRISIONEIRAS...

As formas prisioneiras por belas e dementes
esperam seu resgate. Nem veriam
a eclosão
essas duas crisálidas do sono
ocultas em pedras, telas, tramas,
insensíveis ao sol, à chuva fria,
nem júbilo
nem melancolia
sem que as desates.
Medram a medo
na ante-manhã, carentes de teu sonho,
princesas embalsamadas em sucessão estranha,
à espera.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.61.

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