Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

frisson

Um amigo uma vez definiu o significado de frisson ― é aquele som que o vizinho escolhe livremente para você ouvir. Pois hoje meu vizinho de frente foi tomado pela vibração musical: durante toda a tarde reverberou em seus domínios um som que invadiu os domínios que só por acidente posso chamar de meus, e não tanto pela ausência de uma proteção acústica, um imperceptível manto que mantivesse constante a atmosfera de silêncio e de ruídos. Junto com a música alta outra coisa entrou em minha casa, e a tornou menos minha: a liberdade dele de ouvir música no volume que bem entende fere diretamente a minha liberdade, num sentido bem pouco discernível a esta civilização tão acostumada a hábitos, costumes e modos invasivos. Para ele ouvir livremente sua música eu preciso escutar a música dele. 

9 comentários:

Jamil P. disse...

e o que ele ouvia, meteoro do amor do luan santana??

tá mais pra free som...
perdoe-me trocadilho infame...rs

sonia disse...

Tasca música clássica no volume mais alto possível. Chumbo trocado não dói!

Mariana disse...

Jamil, a ideia é essa mesmo, free som :)

Ele ouve algo que identifico como funk, podendo também ser um pagode, daqueles em torno do qual se reúne a grande e boa família brasileira para fazer seu churrasquinho de fim de semana. Parece não fazer o estilo dele o sertanejo universitário...


Sônia, uma vez li um texto do Paulo Mendes Campos que nunca esqueci, porque era muito afim ao que sentia em torno do barulho, do ruído. Reproduzo um trecho:

"Sou um sujeito especialmente irritável pelos ouvidos. Faço minhas estas palavras não me lembro mais de quem: é difícil viver com os homens porque o silêncio é difícil. De Nietzsche, se não me engano. O inferno para mim não são propriamente os outros, mas o barulho. Amo o sono mais pelo silêncio que pelo repouso. Abomino a vulgaridade das pessoas que falam com estridência, que chamam a atenção sobre si mesmas por intermédio do barulho. [...] Os fãs de rádio estragaram muitas tardes e noites da minha vida. Gosto dos velhos porque valorizam a quietude."

Não chego a tanto, mas faz tempo que o barulho, o excesso de ruídos, a própria agitação das coisas e pessoas, me incomoda. Fiquei mais sensível ao ruído com o tempo, claro, mas acho que de certa forma sempre fui uma criatura afeita ao silêncio, tirando aquele parêntese que se chama juventude, em que se faz barulho por simples e pura rebeldia.

Jamil P. disse...

tenho uns protetores auriculares da 3M bastante confortáveis e eficientes, eles me desligam do mundo; uso-os em caso extremos, como parece ser esse seu; recomendo! você irá encontrá-los em farmácias, casas de materiais ortopédicos, etc.

Mariana disse...

Legal, obrigada, vou procurar. Às vezes nem está fazendo muito calor na hora de dormir, mas mesmo assim ligo o ar condicionado para abafar os barulhos e ruídos da rua. Funciona!

Na minha profissão sou obrigada a conviver com barulho constante: as crianças e adolescentes estão conversando além da conta. É preciso muita paciência e jogo de cintura.

Jamil P. disse...

há destes http://solutions.3m.com.br/wps/portal/3M/pt_BR/SaudeOcupacional/Home/Solucoes/ProtecaoAuditiva/ProtetoresInsercaoMoldaveis/ e destes http://solutions.3m.com.br/wps/portal/3M/pt_BR/SaudeOcupacional/Home/Solucoes/ProtecaoAuditiva/ProtetoresInsercaoPreMoldaveis/ tenho ambos; os primeiros são mais maciozinhos.

imagino o quão paciente você deve ser com eles, e admiro...

Mariana disse...

Obrigada! Acho que o barulho me incomoda mais quando preciso de silêncio. Ás vezes sou capaz de abstrair completamente o barulho, em caso de estar muito cansada, e dormir, por exemplo.

O capítulo paciência é bem interessante, dos mais, acho. É preciso ter bastante paciência, partir do pressuposto de uma certa inocência.

O ruim do barulho na sala de aula, no caso, é que atrapalha isso que se chama leitura e aprendizado. Então eles não estão aprendendo com o aproveitamento desejado, só isso. Dia desses, por acaso, vi no Canal Futura uma matéria falando de barulho e silêncio no ambiente trabalho, e aí mostrava o ambiente da Biblioteca Nacional, bastante silencioso. Quer dizer, o estudo e a leitura pedem atenção, concentração. Por alguma razão afetiva e social, os alunos estão falando demais na escola, não toleram o silêncio: é como se houvesse alguma coisa anormal acontecendo. É uma questão que pede cautela e reflexão, porque acho que tem matrizes culturais amplas, de nosso tempo, que transcendem o contexto escolar.

Jamil P. disse...

De fato esse é um assunto complexo.
Quanto à atenção e concentração, infelizmente são muito prejudicadas pela relação nem sempre positiva, especialmente dos jovens - além da sua natural dispersão, com a Internet e o avanço tecnológico.

Menina no Sotão disse...

Nossa, isso esta parecendo moda. Caramba. Aqui tenho um vizinho que ouve Roberto Carlos toda manhã. Não sei se é dor. Mas em mim dói bastante.
Funk? Meus sais. Pobres ouvidos. Aqui em São Paulo, o problema está no ônibus e nos metrôs. Ninguém sabe da existência de fone de ouvidos. E alguns se superam porque conseguem se sobrepor ao meu som com versos estupidos e abusivos.
Enfim, está realmente mais pra free som. Ainda hoje falava disso num post que comecei a escrever e está lá a espera de qualquer coisa. rs


bacio e boa sorte com a "liberdade" de seu vizinho.