Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

millôr fernandes: fábulas fabulosas I

A MORTE DA COLIBRI

Morreu a colibri. Morreu rápido, fácil, sem dores ou aflições. Morreu como um passarinho. Sua única tristeza, ao partir, parecia ser a certeza de que, como todos os colibris, o esposo morreria assim que ela abandonasse o mundo. Pois é sabido que um colibri não pode viver sem a sua companheira. Jamais houve um colibri que conseguisse resistir à morte da fêmea, eis a suprema grandeza de um amor. Mas como a colibri sabia disso, isso também sabia o dono do colibri viúvo. E, assim que a colibri morreu, o esperto dono, rapidamente, colocou diante do colibri um espelho perfeitamente polido para que a avezinha não sentisse a falta da companheira. E como tal se buscava, tal se deu. O colibri, que era míope ou narcisista, vendo-se refletido no espelho, considerou duplicada a sua vida e, assim, continuou vivendo, contrariando a lenda e a ornitologia. Mas lá veio o dia fatal em que um moleque atirou uma pedra na gaiola, tentando acertar o colibri. Não acertou no colibri mas acertou no espelho. E logo, num minuto, olhando em volta, atônito, apalermado, o colibri entrou em pânico, em agonia, e sucumbiu. O médico chegou apenas a tempo de constatar a morte e declarar a causa: morreu de espelho partido.

MORAL: Ninguém pode viver sem o reflexo da própria imagem.


Millôr Fernandes. Fábulas fabulosas. 15.ed. Rio de Janeiro: Nórdica, 1999, p.27-28.

6 comentários:

sonia disse...

Millôr é um gênio do humor!

Mariana disse...

Interessante, nesta fábula, é a equivalência que ele propõe entre miopia e narcisismo...

Zé alberto disse...

Mariana, adorei estes breves textos de Millôr...tentarei comprar o livro aqui numa loja da Fnac.
Encomendei através da Fnac,como lhe havia dito, «O Jogo da Amarelinha» de Cortazar, mas não me conseguiram fornecer a obra.

Aproveito o ter poisado neste ramo da sua árvore, para lhe desejar que o próximo ano seja o mais possível a concretização das expectativas.

Abraço!

Mariana disse...

Olá, Zé Alberto, muito obrigada, que 2012 também possa ser para você um ano de renovação.

Quanto ao Millôr Fernandes, ele é de fato ótimo, formando, com Luis Fernando Verissimo, a melhor dupla de humoristas do país em matéria de escrita (porque temos também ótimos cartunistas). O que não falta é assunto para eles por aqui, então talvez por isso nas últimas décadas tenham florescido entre nós uma geração brilhante no quesito humor.

Aqui o link do site do Millôr, com amostra de muitos textos seus, inclusive as Fábulas:

http://www2.uol.com.br/millor/fabulas/073.htm

Aqui o link para a História do Paraíso:

http://www2.uol.com.br/millor/histoparaiso/prefacio.htm

Abraço!

Mariana disse...

PS. Tanto o Millôr quanto o Verissimo também são cartunistas, além da habilidade com as palavras, digamos assim.

Zé alberto disse...

Bom dia Mariana, tentei adquirir o "Fábulas Fabulosas" do Millôr, mas aqui em Portugal só existem 3 obras disponiveis desse escritor, e as Fábulas encomendei através duma editora com que a Fnac trabalha, a partir do mercado brasileiro, por isso fico com poucas esperanças, visto que eles dispôem de um limitado leque de obras.

Vou então conferir esses sites que a Mariana referiu, tentando conhecer melhor a "paleta" do humor de Millôr.

Descobri por aqui uma obra bem curiosa de um escritor espanhol: "Perder Teorias" de Enrique Vila-Matas. Ele é, nomeadamente nesta obra, por F. Pessoa, e a sua formulação: "...viajar, perder países".
É numa prosa reflexiva que essa barca (o livro) deambula, concebendo aquilo que o autor designa como uma teoria do romance futuro. Obra muito curiosa.

Votos de um Bom Ano Novo!

abraço!