Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

João Cabral de Melo Neto

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

MELO NETO, João Cabral de. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.84. [de “O cão sem plumas”]

3 comentários:

Luiz disse...

Achei lindo ler isso aqui. Por acaso, dentre tantas citações, O cão sem plumas e Morte e vida severina foram textos usados no final da minha tese para falar da vida que se afirma, ainda que seja severina, franzina, a vida de Macabéa. Um abraço!

Mariana disse...

Luiz, boa noite.

Creio que se eu estivesse em sua banca iria te dar um pouco de trabalho (falo isso com toda a modéstia do mundo, claro, pressupondo apenas meu direito de divergir), porque não consigo ver em "A hora da estrela" a afirmação da vida que você defende (antes, vejo o contrário).

Uma amiga me chamou a atenção para uma particularidade de "Morte e vida...", que é o verso "É difícil defender, só com palavras, a vida." Acho que "A hora da estrela" é uma confissão disso, de que as palavras são apenas a superfície, e que a espessura da vida desafia qualquer tentativa de domesticação, como mostra às avessas a fala do narrador.

Mas é claro que eu não quero nem pretendo discutir ou polemizar e tal. Estou temporariamente fora do debate, do palco, do quer que seja. O que acho é que podemos achar um poema ou um texto divino, maravilhoso, e ele ser absolutamente agreste. "O que vive incomoda": a Macabéa incomodou um certo Rodrigo. E me incomoda profundamente.

Abraço!

Luiz disse...

Mariana, vi seu e-mail e vim ver sua resposta. Não se preocupe pelo canal, eu não estou preocupado. Gosto da sua leitura a contrapelo pelo menos em relação à minha leitura. Ela me faz pensar mais. Estou tranquilo porque sei que grande parte da crítica clariciana falou exatamente isso, do incômodo, do agreste, que não nego em Clarice, mas que procuro mostrar como um sentido em suspenso, como algo que não é dado e fechado no texto, mas que antes se abre para sua própria contradição. É a partir desse gesto de suspeita que acho que devemos ler Clarice. Lê-la sem perceber as contradições que seu próprio texto engendra, seria apenas lê-la de modo inocente e construindo uma Clarice dogmática. Como explicar que Macabéa é o cabelo na sopa, mas também uma força vital até mesmo invejada por Rodrigo? Como entender a inocência pisada dessa personagem, mas também suas tiradas e sua força? Não devemos esquecer que existe um grande Sim no final de A hora da estrela, assim como no Ulisses do Joyce. Acho que esse sim abre uma perspectiva, apenas uma, para a afirmação, para uma leitura afirmativa. Desculpe minha verborragia. Um abraço!