Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 27 de janeiro de 2013

paisagem do silêncio

Atender ao telefone é receber uma visita inesperada. Porque se trata de uma voz, um diálogo, uma interlocução que estão pedindo passagem para a casa-paisagem que o eu ocupa, num momento em que a paisagem pode estar bastante ocupada, inclusive com não ser eu. Quando ouço o telefone tocar, nem sempre estou podendo efetivamente falar ― e secundariamente falar com aquele interlocutor, naquele contexto. Alguma coisa em mim diz não, não posso agora. O silêncio tem-se me tornado sagrado, e acho que o eu precisa respeitar a paisagem de seu silêncio. Isso também é uma forma de arte.
Richard Long, Sahara Line, 1988

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