Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 2 de fevereiro de 2013

quando a calma invade a alma

A prática mais ou menos regular de atividade física ― caminhada e natação ― trouxe-me inúmeros benefícios. Não sei se por efeito ou força disso, eu me percebi mais alheia ao mundo, às coisas, às pessoas. Creio que se intensificou, antes, uma transformação que vinha em curso lento e quase imperceptível, um movimento desde sempre meu, remontando à infância. O mantra tomado de empréstimo a Álvaro de Campos: “Fique eu só com o grande sossego de mim mesmo / É um universo barato”. Só com o grande sossego de mim mesmo(a). Quanta coisa neste verso elíptico, em que o eu e seu reflexo (mim mesmo) miram-se sossegadamente. Sobretudo isso: o grande sossego advém também de ser um universo barato.

Um comentário:

sonia disse...

Meu filho tem uma frase,produto de sua reflexão sobre a vida:

"A vida é uma merda, por isso é que é boa. Se fosse boa, seria uma merda".

No princípio eu não "captei" a mensagem, agora entendi perfeitamente o que ele quis dizer. E concordo!
(desculpe o nível, mas foi preciso...rsrsrs)