Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu

II, 3

Espelhos: o que sois ninguém se viu,
em sua essência, retratá-lo.
Vós que vazais um intervalo
no tempo com as peneiras do vazio.

Perdulários das salas ocas esqueceis,
quando anoitece, como florestas distantes,
e o lustre ― cervo de dezesseis 
pontas ― devassa com as luzes penetrantes.

Talvez estejais cheios de pinturas.
Umas parecem em vós incorporadas ―,
outras dispensais com um brilho indeciso.

Mas as mais belas ficarão guardadas,
até que lá do alto, em suas feições puras,
penetre, livre e lúcido, Narciso.

RILKE, Rainer Maria. Coisas e anjos de Rilke. Trad. Augusto de Campos. São Paulo: Perspectiva, 2007, p.159.

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