Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

um ato de liberdade

Chega um momento em que o cansaço avizinha-se da estafa, e torna-se paralisante. Há livros, muitos, para ler, mas falta força para envolver-se com a narrativa; há filmes interessantes a assistir, mas são apenas uma lembrança remota; há coisas interessantíssimas na blogosfera para ler e comentar, mas o cansaço dirige a atenção para o que pressupõe o princípio da parcimônia. Então não é um estado interessante. Vejo diante de mim mais um ano de trabalho exaustivo, e já inicio cansada. Há um ano atrás conheci o que era a estafa: creio que ainda não me refiz. Sem contar que isso não diz respeito apenas ao trabalho, mas à própria vida, quando se descobre o que a Clarice Lispector diz em "O ato gratuito", ao situar o profundo cansaço pela luta: "Eu precisava ― precisava com urgência ― de um ato de liberdade: do ato que é por si só. Um ato que manifestasse fora de mim o que eu secretamente era. E necessitava de um ato pelo qual eu não precisava pagar. Não digo pagar com dinheiro mas sim, de um modo mais amplo, pagar o alto preço que custa viver." (A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.410). O que atenua isso tudo é escrever, pois aqui não se trata de uma pena de aluguel ― não escrevo por obrigação, mas por necessidade, por gosto e prazer.

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