Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Manuel Bandeira

O rio

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refleti-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.203.

5 comentários:

Jamil S.P. disse...

Mirar el río hecho de tiempo y agua
Y recordar que el tiempo es otro río,
Saber que nos perdemos como el río
Y que los rostros pasan com el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
Que sueña no soñar y que la muerte
Que teme nuestra carne es esa muerte
De cada noche, que se llama sueño.

(...)

Zé alberto disse...

Manuel Bandeira escreve bonito, muito.

Mariana disse...

Jamil, obrigada por me trazer à lembrança esse imprescindível poema do Borges, tão mais belo quando se pensa, na língua espanhola, os sentidos da palavra sueño. O rio silencioso do Bandeira acalmou meu sono, e pude sonhar sem me lembrar de nada ao amanhecer.

Zé Alberto, você disse tudo.

Jamil S.P. disse...

Menina, estou com o Borges na cabeça (tenho lido nas pausas dos meus estudos, para descontrair), daí a bela poesia do Bandeira acabou me remetendo a ele, que transcrevi aqui talvez meio fora de propósito. Mas que bom que você gostou.

Ótimo, antes um sono calmo e tranquilo que uma noite assim poética...

Quatro horas soaram.
Levantei-me nove vezes
para ver a lua.

...como a desse haicai de Bashô, traduzido pelo nosso Bandeira.

Bom dia! :)

Mariana disse...

Eu não achei fora de propósito, gostei muito da metafísica do Borges dialogando com o lirismo do Bandeira: um lançando para a imensidão do infinito, outro para o infinito do ser. Eu adoro o Borges, mas os poemas dele que tenho aqui não são os melhores, creio.

E uma boa noite de sono pode ser também uma noite poética. O Bandeira sabia falar da noite como ninguém.

Obrigada pelo Bashô, tenha também um bom dia!