Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O que os outros sabem de nós: Nietzsche

“Aquilo que sabemos de nós mesmos e que temos na memória não é tão decisivo para a felicidade de nossa vida como se pensa. Um dia cai sobre nós aquilo que outros sabem (ou acreditam saber) de nós ― e então reconhecemos que isso é mais forte. É mais fácil lidar com sua má consciência do que com sua má reputação.”

NIETZSCHE, F. A gaia ciência. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p.91.

2 comentários:

Luiz disse...

Depois de uma semana exaustiva de volta às aulas, consigo passar por aqui. De tudo que li do Nietzsche, e, já percorri quase todas suas obras traduzidas para o português, A gaia ciência ocupa o lugar central para mim. É neste livro que podemos ler..."Quero dizer que o mundo é pleno de coisas belas, e contudo pobre, muito pobre de belos instantes e revelações de tais coisas. Mas talvez esteja nisso o mais forte encanto da vida: há sobre ela, entretecido de ouro, um véu de belas possibilidades, cheio de promessa, resistência, pudor, desdém, compaixão, sedução". Isso é muito valioso para mim. Um abraço!

Mariana disse...

Obrigada por encontrar tempo para passar nesta ilha tão ela própria, sem adjetivos. Se li 5% do que você já leu do Nietzsche foi muito, portanto nem posso avaliar como você faz a obra dele. Mas sou curiosa, vou lendo aos pouquinhos, e às vezes calha que algo que leio dele vem muito ao encontro de algo que vivenciei, e então as duas coisas se alimentam: percebo o vitalismo da escrita dele, o quanto ela tem de "verdade", e percebo o que há de incógnito e estranho na vida. É como se o lesse por dentro, e não simplesmente pelos signos.

Mas o trecho que você cita dá bem a dimensão da estreiteza humana: um mundo de coisas belas, mas para poucos. Sem nenhuma presunção ou vaidade eu persigo isso, os "belos instantes e revelações de tais coisas." Eu busco isso, nas relações, nas leituras, nas escolhas, na arte, porque sei que é muito fácil ser brutalizado e sequer chegar a sonhar com um instante de magia.

Adorei o trecho, obrigada. Outro abraço!