Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O Quarto do Filho (Nanni Moretti, 2001)


Pessoas sofisticadas que não sabem o que fazer diante do que não entendem, ou relutam em aceitar. Se o principal personagem deste filme é a ausência, o súbito vazio deixado por uma vida que se vai sem explicação, o quarto do filho é o lugar dessa ausência, e o divã o lugar onde a culpa (não) se resolve. O divã, a experiência da cura pela palavra que o pai conduz com destreza e segurança, atrela-se, pelo acaso, à morte acidental do filho, e o pai se desnorteia com isso, não entende mais sua profissão, pois passa a vê-la como instância da culpa que sente: a culpa por não conhecer bem o filho, a culpa por não ter passado mais tempo com ele, a culpa pelas escolhas que fez, ou acredita ter feito. Em todo caso, os papeis analista/paciente são subitamente invertidos: é o analista que precisa do divã para continuar seguindo sua vida. Mas o que ele faz/fazia pelos outros não consegue fazer por si próprio, e os três seres da família que continuam vivos parecem não encontrar mais sentido em viver juntos. Na cena final, na praia, cada um caminha em uma direção, deixando tudo num plano vago e indefinido. Se o divã funcionava para fora dos limites da casa, ele desaparece como possibilidade de resolver o drama familiar que se instala, a ele atrelado. Todos são cultos, sofisticados, comunicam-se com elegância, usam a linguagem de forma fluida, mas choram em segredo. Após a missa pelo filho, o pai questiona vivamente o provérbio cristão mencionado pelo sacerdote, do ladrão que entra na casa de surpresa, levando o que encontrar, uma outra forma de falar de acaso, destino e fatalidade. Ele questiona vivamente o dito cristão, mas antes de sua perda dolorosa tentava, de alguma forma, fazer seus pacientes aceitarem suas vidas, suas limitações, num plano fortemente intelectualizado. Contradições são apontadas pelos próprios pacientes, mas o que tira tudo dos eixos é o acaso, o imprevisível, a dor pela perda, acentuada pela culpa. O divã falha, a linguagem só tinha valor, e um valor elevado, enquanto aquela família era feliz. Mas então é o próprio pressuposto do divã que está sendo posto em causa. O quarto do filho dá notícia do vazio com que lida todo aquele que se dispõe a fazer análise. 

5 comentários:

Luiz disse...

Este filme para mim é o melhor do Nanni. Você trouxe coisas interessantes dele com seu olhar neste post. Parabéns! Um abraço!

Mariana disse...

Obrigada :) são coisas que intui da minha ótica de paciente de um divã, e agora entendo porque os analistas/psicólogos assistem este filme, falam dele: o que o protagonista faz, confundindo a profissão com a vida, misturando sua vida à dos pacientes, não pode acontecer, ele se equivoca no exercício da profissão, desde o início, me parece, ao abrir um armário e mostrar à paciente como "resolve" suas questões.

E aí eu acrescentaria um P.S., em virtude do curta que acabei de assistir e vou postar: é o cinema que está falando como possibilidade de cura/catarse aí, em vez do divã. Me parece que o Moretti conduz o espectador ao questionamento do divã (e isso é sério) para sugerir que a saída estaria em outro lugar... Em "Bianca" o protagonista também recusa o divã.

Nesse sentido, o filme é rico de possibilidades de se pensar a questão da palavra, pois se ela está o tempo todo em cena, aos poucos vai cedendo ao silêncio.

Abraço!

Luiz disse...

Sim, brilhantes esses apontamentos, tanto a questão do cinema/divã como palavra/silêncio. Amei!

Mariana disse...

:) desse jeito eu ruborizo...

Sério, eu pensei um tanto de coisa mesmo, algumas talvez quase heréticas, tipo: a encenação de um édipo às avessas, colocando a própria psicanálise no divã: é o pai que se sente praticamente matando o filho, ao contrário de édipo, mote clássico da psicanálise, e a responsabilidade por essa morte é transferida para o paciente que tirou-o, o pai, de casa num domingo, e então tudo desandou.

Ninguém naquela família duvida de nada que vá além da etimologia, a mãe não duvida das palavras "sinceras" do filho acerca da acusação de roubo na escola (o pai é o único a desconfiar, mas por vício da profissão - ele psicanaliza tudo), até que a "tragédia" aconteça: então é todo mundo meio inocente. Os problemas são dos pacientes, e ficam do consultório para fora, um anexo da própria casa. O que acontece é então interpretado tragicamente, como se uma súbita bem-aventurança fosse de repente perdida, ou roubada, como disse o sacerdote no provérbio do ladrão. Ai, sei lá, acho que estou falando demais...

Resumindo: se a psicanálise deu-se o direito de ir ao cinema e interpretar os filmes como bem quisesse, parece que o Moretti aqui quis inverter a coisa, e fez o cinema visitar a psicanálise, pondo-a no divã e apontando-lhe os limites, os frágeis limites. De fato, é fácil perceber como, quando a dor é muito grande, a palavra cede ao silêncio, ao pranto, à incomunicabilidade.

Eu preciso arrumar um jeito de falar menos dos filmes e obras que me incomodam (e isso é um elogio a essas obras). O que me faz lembrar de outro filme marcante, imperdível, lidando com a tríade palavra-dor-silêncio, que é "A vida secreta das palavras", longe do divã, longe de tudo.

http://www.omelete.com.br/cinema/a-vida-secreta-das-palavras/

Palavras, palavras, palavras... não podemos nos furtar a elas.

Mariana disse...

Esqueci de dizer: obrigada por suas palavras tão lisonjeiras, e delicadas (como você, aliás).