Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 5 de abril de 2011

espiritualidade

Pode-se dar à palavra "espiritualidade" diferentes contornos. Saindo do plano dos signos, seria análogo dizer que a espiritualidade é experenciada, quando o é, de formas distintas, que no âmbito da experiência ela adquire contornos e nuances relativos a quem sente em si um certo incômodo, ou deslocamento, que só pode ser traduzido pela palavra "espiritualidade". Não é angústia, não é tristeza nem alegria. É um leve desconforto, um desacordo de si com a substância das coisas, talvez sintoma de um acordo mais fundo. Isso é tão difícil de expressar quanto a singularidade de uma vida. Mas quando essa presença é sentida em si, não pode ser ignorada.

6 comentários:

sonia disse...

Eu sinto uma "inadequação" que já encontrei em alguns escritores, pois é mais fácil eu me identificar com alguns deles do que com pessoas do dia-a-dia, às quais conheço menos da alma do que de um Kafka, que acredito tenha sido um exemplo de "inadequação" a este mundo.

Mariana disse...

Sônia, preciso! A escrita desses escritores creio que responde a essa inadequação, enquanto as pessoas do dia a dia que você cita, no geral, revelam pela linguagem a tentativa de adequação. São movimentos distintos.

O diferencial da escrita deles é assumir a inadequação, problematizando a linguagem (e a vida) até o insuportável, como faz Kafka e, por exemplo, Clarice Lispector em G.H.

sonia disse...

Quando eu li G.H. precisava dar uma paradinha de vez em quando para tomar fôlego, como quem precisa fechar um pouco a janela do carro numa viagem, para aborver um pouco menos de oxigênio e não sufocar!Preciso reler.

Mariana disse...

G.H. é muuuuuito difícil, eu tentei ler, o que é um pouco diferente de ler. Não suportei aquela cena, a "coisa". Há muitas travessias neste romance, eu precisava pegar novamente para ler, mas falta coragem.

sonia disse...

É bem pesadinho, sim...rsrs. Sempre fiquei cismada com o que significa G.H. até que li em algum lugar a hipótese de ser : Gênero Humano. Pode até ser. Veja a coincidência dos nossos queridos escritores (Kafka e Clarice) usarem a barata como protagonista em seus livros. Nunca havia reparado nisso antes.

Mariana disse...

Gênero Humano: pode ser...

Quanto à coincidência, eu reparei, e como tenho dificuldades incríveis com "A metamorfose", e verdadeiro horror a baratas, em G.H. ficou insuportável. Tanto Kafka quanto Clarice põem o humano em questão mediante o inseto (o estranhamento) mas acho que apostam em coisas diferentes.