Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 9 de abril de 2011

juventude

Há pessoas que deixam de ser jovens muito cedo. Alguma coisa em sua postura faz imaginá-las já no amanhã, não contando as transformações físicas e um endurecimento do que um dia pôde ser chamado de ternura, com o agravante de que os inevitáveis problemas de saúde virão calejar ainda mais. Há um traço forte para esse reconhecimento, traço este que não se encontra em todos os que envelhecem jovens: a facilidade com que se tornam "situação", não importa quem esteja no comando. É todo um conjunto muito sutil de características e posturas que trai uma ausência de rebeldia. E aqui abro um parêntese para dizer que o poema "Juventude", de Mário Faustino, inspirou um pouco do que aqui vai. Fui reler e imaginei mesmo como seria uma adaptação para um curta-metragem. Imaginei, mas não passou de um esboço, suficiente para dar o traço decisivo do modo "situação" de se colocar no mundo: o discurso poliana, de olhar e ver que sempre há, ou pode haver, uma situação pior que aquela apresentada. Nada pior do que ter como parâmetro o que está aquém do que, por julgamento, já está ruim. Porque a chance de que as coisas continuem a piorar é bem grande. Por que não lembrar que há possibilidades de as coisas serem melhores, condições mais favoráveis a uma existência tranquila? De pior em pior, chega-se sabemos muito bem onde. 

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