Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 9 de abril de 2011

falando ainda sobre o que não quer calar

Acusações de sensacionalismo na cobertura da imprensa sobre o ocorrido há dois dias não retiram o incômodo que paira num nível anterior ao dado bruto da informação. Morar na cidade e na mesma região (zona oeste) em que tudo aconteceu, trabalhar no bairro onde a violência se deu, em sua forma mais brutal e estúpida, que é a execução sumária sem chance de defesa, tem um impacto que eu jamais poderia entrever. Que palavras dão conta do que choca e atordoa? Como lamentar sem ferir uma dor inconcebível, que não é minha e que mal posso alcançar? Minha dor é outra, a da perplexidade, do espanto. Numa resposta a um comentário de outro post, escrevi: "A escola tem um componente de esperança muito grande, um investimento afetivo por parte de quem a procura, então eu não consigo aceitar a morte dessas crianças (quer dizer, a morte de qualquer criança parece mesmo um insulto, uma ofensa), era para ser um dia como outro qualquer na vida delas, a gente sabe da luta das pessoas menos favorecidas para manter os filhos na escola, e essas crianças perderam a vida onde tinham ido buscar, como dizem o Chico Buarque e o Paulinho da Viola, um lugar no futuro." Essa noite sonhei coisas esquisitas, violentas, que não consegui entender. Há um trauma coletivo que se instaurou a partir do episódio, e por isso a obsessão de escrever, falar. Um site fornece dados que compõem um quadro bizarro de tudo: 

A Polícia Civil do Rio de Janeiro vai apurar as informações de um homem que teria sido o melhor amigo de Wellington Menezes de Oliveira, o atirador que invadiu a escola municipal Tasso da Silveira, em Realengo, zona oeste do Rio, na última quinta-feira (7) matando 12 alunos. Oliveira também morreu na ação. O UOL Notícias conversou com o suposto amigo, que aqui será identificado como G.S. Ele afirmou que também foi aluno da escola Tasso da Silveira e que conhecera Wellington em um templo das Testemunhas de Jeová, há cerca de quatro anos. Durante a conversa, ele fez pelo menos quatro menções a passagens da Bíblia ― como esta dos Coríntios: "Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes" ― e  também citou pontos abordados na carta deixada por Oliveira, como a questão da pureza. "Aquele colégio era cheio de garotas ‘fogosas’. O pessoal até achava que eu era gay, pois as meninas chegavam passando a mão e eu me mantive puro, pois a fornicação é condenada pela sagrada escritura", disse G.S. Na carta de suicídio, o atirador também usou o verbo "fornicar" de forma a condenar a prática sexual. G.S. afirma que a pressão religiosa foi fundamental para a construção da personalidade criminosa de Oliveira.

A carta deixada pelo rapaz é de fato assustadora, e a considerar o tom religioso, quase messiânico, que dominou o último debate eleitoral para a presidência da república no Brasil, em que a causa da mulher e a questão da legalização dos direitos dos homossexuais foram motivo de disputas calorosas e ardilosas, a ponto de muitos analistas terem percebido uma postura quase medieval de setores mais conservadores da sociedade, é digno de nota que num pequeno trecho da fala acima destacada apareçam entrelaçados o discurso bíblico, o julgamento da conduta das mulheres e uma recusa a ser tachado como gay. Tampouco surpreende, agora divagando mais longe, a polêmica recente em torno das declarações do deputado Jair Bolsonaro, racistas e homofóbicas. Dado que a misoginia anda a par da homofobia, é este o mesmo tom da carta do rapaz que executou as crianças, alvejando preferencialmente, segundo relatos, as meninas. Valores tradicionais, forte componente religioso-messiânico, misoginia. A proporção do horror que assumiu essa combinação, numa mente psicótica, talvez impeça, no momento, de pensar que há uma tendência em curso ao conservadorismo, em ritmo lento mas decisivo, observável em diferentes setores da sociedade brasileira, tendência mais fácil de tomar proporções catastróficas em setores desfavorecidos economicamente, pois em geral a pobreza torna tudo mais grave e difícil. Possivelmente é desses setores que vêm os votos de Jair Bolsonaro e congêneres.