Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 24 de maio de 2011

Alexei Bueno

Do inacabado livro nosso, a vida,
Em vão nos perguntamos em que frase
Truncada, ou em que sílaba
Partida, a Moira cega o vai parar.
Enquanto alheio, entre os seus rolos muitos,
O vento passa, o mesmo
Que nada nos contou quando passava,
E vira as folhas brancas, incontáveis
Mortalhas, sobre nós.

BUENO, Alexei. Poemas gregos. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.185.

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