Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 24 de maio de 2011

"A Morte": Vinicius de Moraes

Sonhei com a morte, um sonho sufocante de que consigo me lembrar pouco, pouco mais que uma sentença: o caráter arbitrário da morte sobre a vida, o fato dela vir de surpresa, sem aviso, e levar alguém. Não sei se era eu que morria na figura de alguém que morria no sonho, mas enquanto alguém morria acordei com as mãos cruzadas sobre o peito, a respiração difícil, não sei se pela matéria do sonho ou pela força das mãos, provavelmente para sair daquela posição e me acordar do sonho. Passados dois dias o telefone tocou. Alguém próximo da família, uma pessoa jovem, morreu hoje de forma estúpida. Então foi inevitável lembrar do sonho e de muitas outras coisas, e me veio à mente este poema:

A MORTE

A morte vem de longe
D fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.

MORAES, Vinicius. Nova antologia poética. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005, p.41. 

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