Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 27 de maio de 2011

Paul Klee e João Cabral de Melo Neto

The Golgfish, 1925 (imagem obtida aqui)

HOMENAGEM A PAUL KLEE

Nele houve o insano projeto
de envelhecer sem rotina;
E ele o viu, despelando-se
de toda pele que tinha.

Sem medo, lavava as mãos
do que até então vinha sendo:
de noite, saltava os muros,
saía a novos serenos.

MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.40.

4 comentários:

Marcantonio disse...

Grande admiração pelos dois. Também fiz minha modesta homenagem ao primeiro:

KLEE

De miniaturas
Seria feita a eternidade,
E tu, engenheiro da exigüidade,
Ainda almejarias mais singeleza.

Com caligrafia lúdica,
Uma criança perpassa
Tudo o que fizeste:

Múltipla beleza,
Mínima escrita,
Máxima poiésis.


Abraço.

Mariana disse...

Olá, Marco, obrigada por disponibilizar aqui seu belo poema-homenagem, a singeleza do traçado, seu e do artista homenageado. Máxima aesthesis.

A propósito, sobre homenagens e recorrências, preciso dizer que, ao escrever o texto intitulado "nuvens", fruto de uma minúscula angústia, ia me lembrando de seu último poema em "O Azul Temporário", mas sabia que não era plágio, era uma espécie de eco (modesto, é claro) que ficou ressoando em mim. Tanto que, ao percebê-lo, já no final, fui lá no seu blog e fiz o comentário. É só uma explicação.

Abraço.

http://azultemporario.blogspot.com/2011/05/interiores-e-vida-silenciosa-xli.html

http://thmari.blogspot.com/2011/05/nuvens.html

Marcantonio disse...

Mas é verdade, Mariana. É um desvelar intuitivo, não é? E, invertendo o sentido momentâneo do poema (porque creio que poetas propõem por momentos uma síntese dos contrários)não raro a percepção poética é um sol interno capaz de dissipar as nuvens da realidade.

O texto é excelente.

Abraço.

Mariana disse...

Obrigada, Marco, pela atenção e pelo comentário ao meu "texto nublado", por assim dizer :)

Em certo livro científico li certa vez essa frase bonita: "Estrelas são sóis; o sol é uma estrela." Acredito nessa força que os poetas possuem, esse sol, tanto que algumas pessoas passam a necessitar da poesia como do próprio sol, pois ambos alimentam a vida. E aí me vem a propósito um dos meus sóis (ou estrela) diletos, a Emily Dickinson, na tradução de José Lira:

The Poets light but Lamps -
Themselves - go out -
The Wicks they simulate -
If vital Light

Inhere as do the Suns -
Each Age a Lens
Disseminating their
Circumference -

O Poeta acende Lâmpadas -
Ele próprio - apaga-se -
Os Pavios que inflama -
Se têm essência

Como os Astros agregam-se -
Uma Lente em cada época
Disseminando a sua
Circunferência.

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.150-151.

Poema enigmático, aliás como outros dela. As luzes que o poeta acende podem tornar-se sóis... E os leitores são alcançados pela força dessa luz, que pode atravessar o tempo, como aliás a luz das estrelas, que são sóis, podendo sim dissipar nuvens.

Abraço.