Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 15 de junho de 2011

alguma coisa urgentemente

"Alguma coisa urgentemente" é o título de alguma coisa que o João Gilberto Noll escreveu, que não li, é certo, pois o pouco que li do Noll, três livros, foi o bastante para perceber que não consigo me avizinhar muito de seu estilo. Mas, quando me lembrei da expressão, supus que fosse de Sérgio Sant'Anna, de que gosto, e por isso supus, e também porque vejo na escrita deste uma urgência mais interessante. "Alguma coisa urgentemente" é um conto e está na coletânea Os cem melhores contos brasileiros do século (p.416-422), e definitivamente não o li. Li, entretanto, o excelente "Um discurso sobre o método", de Sérgio Sant'Anna (p.402-415), que por acaso vem antes do conto da urgência citado, e li isto, do mesmo Sérgio:

“Aqui, um território vazio, espaços, um pouco mais que nada. Ou muito, não se sabe. Mas não há ninguém, é certo. Uma cobra, talvez, insinuando-se pelas pedras e pela pouca vegetação. Mas o que é uma cobra quando não há nenhum homem por perto? Ela pode apenas cravar seus dentes numa folha, de onde escorre um líquido leitoso. Do alto desta folha, um inseto alça voo, solta zumbidos, talvez de medo da cobra, mas o que são zumbidos se não há ninguém para escutá-los? São nada. Ou tudo. Talvez não se possa separá-los do silêncio ao seu redor. E o que é também o silêncio se não existem ouvidos? Perguntem, por exemplo, a estes arbustos. Mas arbustos não respondem. E como poderiam responder? Com o silêncio, lógico, ou um imperceptível bater de suas folhas. Mas onde, como, foi feita essa divisão entre som e silêncio, se não com os ouvidos?”

SANT’ANNA, Sérgio. Conto (não conto). Os cem melhores contos brasileiros do século. Org. Ítalo Moriconi. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000, p.518, parágrafo inicial.

Alguma coisa urgentemente, que (se) possa contar, que não violente demais o silêncio, que faça a necessária inscrição da vida humana no silêncio e dele traga algum sentido para o existir ― existir que fatalmente será envolto pelo silêncio, e então essa urgência de alguma coisa que não se sabe bem o que é, quando a densidade do silêncio fica mais espessa ou rarefeita que o ar. Mas se fosse necessário precisá-la, seria a urgência de que a apropriação das palavras não fosse tão traiçoeira: “Mas o que é uma cobra quando não há nenhum homem por perto?”. Urgência de delicadeza, para fazer do silêncio um par. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário