Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Herberto Helder: ETC.

Como o centro da frase é o silêncio e o centro deste silêncio
é a nascente da frase começo a pensar em tudo de vários modos ―
o modo da idade que aqui se compara a um mapa arroteado
por um vergão de ouro
ou o medo que se aproxima da nossa delicadeza
e que tratamos com o poder da nossa delicadeza ―
temos que entrar na zoologia fabulosa com um talento bastante fabuloso
pois também somos a vítima da nossa vítima ―
e ofereço à perscrutação apenas uma frase com buracos
assinalando uma cabeça escritora
assim era ― dizia a própria cabeça ― um queijo suíço
a fermentar como arcturus fermenta na treva celeste
e apura os volumes e a qualidade dos volumes
da luz ―
desde que a atenção criou nas coisas o seu movimento
as formas ficaram sob a ameaça do seu mesmo
movimento ―
o mais extraordinário dos nomes sempre esbarrou
consigo mesmo
com o poder extraordinário de ser dito ―
qualquer vagar é de muita pressa e toda a rapidez
é lenta ― basta olhar para a paisagem da escrita já antes
quando começa a abater-se pelo seu peso e o espírito
da sua culpa ―
porque uma frase trabalha na sua culpa como a paisagem
trabalha na sua estação ―
o merecimento a ver quem a ele chega primeiro
ao buraco do coração ― ver ou ser visto ―
ao buraco que transpira no meio do ouro ―
se é ele o ouro ou se o ouro está em volta tremendo
como um nó vivo implantado em cheio na madeira ―
e a única meditação moderna é sobre o nó
absorvendo a madeira toda ― uma espécie de precipitação
convulsa da matéria para o seu abismo próprio ―
e sobre a tábua despida incorporando cada nó que fica
a palpitar com a força do tecido inteiro
da tábua
e lançando na tábua a sua energia mergulhada
de nó ―
porque em toda palavra está o silêncio dessa palavra
e cada silêncio fulgura no centro da ameaça
da sua palavra ―
como um buraco dentro de um buraco no ouro dentro do ouro

                                                e

cumpre também falar do desafio do espetáculo ― o teatro
dentro do teatro ―
o travesti shakespeareano na dupla zona da forma e da inclinação
para o sentido enigmático ―
a rapariga vestida de rapaz interpretando a função oblíqua de rapariga
perante o rapaz vestido de rapariga interpretando
a misteriosa verdade corporal de rapaz ―
o que se pede à cena é apenas o delírio de uma coisa exacta
através das armadilhas ―
porque a vertigem é um acesso às últimas possibilidades
de equilíbrio
entre a verdade que é outra e a outra verdade que é
uma verdade de uma nova verdade continuamente ―
outra regra do espetáculo é inventar
a forma seguinte do enigma de modo a que a frase visível
fique junto ao rapto ―
empurrar o rosto para as trevas ― ou retirar da dança
os pés e ficar à luz uma espécie de imobilidade ―
o brilho do rosto já sem o rosto mas com toda a energia
e todo o impulso de um rosto ser o rosto teatral ―
porque também a máscara era a abolição de uma falsa liberdade
do rosto ―
e então não era o rosto que estava mas
a eternidade de um teorema ―
a abdicação das formas que morrem de si mesmas ―
um salto para o centro ―
e as presenças muito brancas enchem a cena
apenas de brancura
central implantada cega na paragem do tempo ―
perder o nexo que liga as coisas porque há só uma coisa
dada por indícios ―
uma centelha um sopro um vestígio um apelo uma voz ―
que a metáfora seja atendida como alusão à metáfora
da metáfora
como cada coisa é a metáfora de cada coisa ―
e o sistema dos símbolos se represente como o símbolo
possível de um sistema
de símbolos do símbolo que é o mundo ―
o mundo apenas como a nossa paixão posta diante de si ―
a paixão da paixão ―
nenhuma frase é dona de si mesma ―
e então o teatro que apresenta a frase não é dono de nada
mas só do recurso
de ganhar uma regra e recusar a regra ganha ―
assim como a voz abdica no silêncio e o silêncio
abdica na voz para dizer apenas que é uma forma de silêncio ―
um gênio animal inexplicável como uma queda no escuro ―
enquanto as vozes são cada vez mais astrológicas e loucas ―
e desaparecemos no silêncio levando com uma grande
leveza a queimadura inteira na cabeça

1974.

Herberto Helder. Ou o poema contínuo. São Paulo: A Girafa, 2006, p.297-300.

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