Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 1 de outubro de 2011

letra Z

Após a leitura de uma teoria sofisticada sobre o capitalismo, e constatados a geladeira e os armários vazios, fez-se imprescindível uma visita rápida ao supermercado (manhã de sábado, primeiro dia do mês, superlativamente um quente e ensolarado dia de rock), que ilustrou de forma cabal a teoria: a agitação das pessoas, carrinhos chocando-se, falta de espaço, mercadorias migrando das prateleiras para os escaninhos dos consumidores, o consumo que nunca é consumo apenas de mercadorias, mas de uma ideia, de muitas ideias, de modos de vida. Então, lembrando-me de uma situação recente vivida no divã, me dei conta de que quero falar de Zizek e não de Cazuza. Na hora achei graça na coincidência da letra Z e sorri, mais para dentro, percebendo que alguém me notava sorrindo. Sorri e apressei o passo. Ali só fico o indispensável. Na estética do capitalismo, o supermercado é o lugar em que a mercadoria atrita com o desejo de liberdade, embora pareça o tempo todo satisfazê-lo.

2 comentários:

Marcantonio disse...

Ótima essa conclusão a respeito do consumo e da liberdade. Curiosamente, pensava algo semelhante a respeito da minha estadia no Facebook. Como há ali uma espécie de contração do mundo, exatamente oposta à expansão que se pretende ao entrar! Causa um fastio precoce, uma saturação. Fico pensando em como o comunicar-se se torna algo muito mais valioso em função de alguma restrição objetiva para fazê-lo. É preciso tempo para acumular o que dizer, e, nesse caso, talvez a palavra 'reserva' tem um outro sentido mais positivo, cumulativo, mas distinto do sentido cumulativo material.
De igual modo, consumir em excesso não seria consumir-se, gastando e se desgastando na indistinção de um desejo indiferenciado? Talvez o desejo também precise de alguma reserva para diferenciar-se, para autenticar-se.

Abraço.

Mariana disse...

Pertenço à insignificante minoria dos que não estão no Facebook, simplesmente porque não encontraram o que fazer lá.

Fazer é dizer, ou dizer é fazer, diz uma moderna teoria da linguagem: ao mesmo tempo em que isso pode cercar a linguagem perigosamente do mesmo utilitarismo da mercadoria (e está aí a publicidade vitoriosa), por outro lado é bom não ser inocente quanto ao comunicar(-se), porque não há gratuidade nas palavras.

Acho que a poesia produz novas formas de inserção no mundo, na medida em que traz possibilidades efetivas de distanciamento, inclusive temporal: enquanto a publicidade leva de encontro à mercadoria, a poesia leva ao encontro de... de quê? De novas possibilidades de vida.

Uma pergunta que me faço é: o que ainda consegue escapar ao balcão de ofertas do supermercado? Como o capitalismo mudou a percepção que as pessoas têm de si mesmas, a ponto de confundirem desejo, consumo e liberdade?

Abraço.