Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

noite

Ao dormir, o expressivo verso de Dylan Thomas, tentativa de evocação da leitura feita um pouco antes: "Tornei-me amigo do sono que me beijava o cérebro":

Tornei-me amigo do sono que me beijava o cérebro,
Deixando rolar a lágrima do tempo; o olho de quem dormia,
Abrindo-se na luz, voltou-se para mim qual uma lua.
Assim, erguendo-me nos calcanhares, voei ao longo de meu ser
E despenquei sonhando a contemplar o céu lá no alto.

O primeiro verso é um convite à noite, ao sonho, a essa outra vida que se vive dormindo, no soño. Evoquei o verso na lembrança que adormecia, e sonhei o que o poema prometia. Despenquei de um sonho urdido pelo dia. Sonhos traduzem o dia em águas turvas, ainda que o traje das personagens seja de um branco alvíssimo. Sonhos são também antecipações, e por isso o sono que beija o cérebro é amigo.

Dylan Thomas. Poemas reunidos. Trad. Ivan Junqueira. 2.ed. rev. Rio de Janeiro: José Olympio, p.89.

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