Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

nas ruas da cidade

A rua ontem não estava nem mais nem menos agitada que o usual. Estava rua, com sua confusão de signos, sua dispersão de passos, seu entrecruzar caótico de gente. Encontrei uma brecha e fui ao CCBB comprar a entrada para o teatro que está prestes a sair de cartaz, "Na Selva das Cidades", de Bertold Brecht. Aproveitei o parêntese e conferi a exposição sobre Miles Daves, também saindo de cartaz, reparando num trocadilho: Miles Smiles. 

2 comentários:

sonia disse...

Essa música me leva aos 16 anos, vivendo uma fase complicada em família, que eu e minha irmã procurávamos disfarçar com momentos de alguma alegria. Ficávamos no terracinho de uma casa em São Vicente, em que moramos por alguns meses e toda a noite, às 11h00, na apresentação de um programa de jazz da Rádio El Dorado, tocavam Summertime. Quase ao mesmo tempo passava na rua um carro misterioso(daqueles rabo-de-peixe americanos) e me lembro que falávamos "tchuá", para imitar a orquestra que começava Summertime com um som assim: tchuá, tchuá...
O tempo volta no ato, é só tocar essa música e eu visualizo toda a vivência dos meus 16 anos.

Mariana disse...

Sônia, antes eu não dava à música o relevo de hoje. Ela é um aglutinador de emoções e sensações muito forte, e o repertório, via de regra, constrói-se na juventude. A música em tela é muito bonita, por isso é perfeito isso que você fala da evocação de uma atmosfera, de um tempo.

Através da música (da música que nos atravessa), vivenciamos de outro modo as emoções, e isso é uma forma de catarse. Eu, por exemplo, não tenho uma música que me leva aos 16, fase anódina e sem atrativos que foi, mergulhada nos estudos. Mas tenho várias músicas que me trazem a atmosfera da vida na universidade, e isso é tão fantástico que, musicalmente, foi uma das experiências mais intensas que tive, e que deixou minha memória para sempre impregnada de certos sons e ritmos.

Depois vieram outros sons, mas a música daquele tempo tornou-se inesperável da sua memória.