Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 1 de outubro de 2011

segredo

nada o mar em seu mistério
mar onde mora o segredo.
o segredo do mar ― nada.
nada ― súmula do segredo
secreto o mistério.
não há mais segredo
se silenciada a palavra
que desfaria o mistério.
o mar secretou o nada
que silenciou o segredo.
não existe segredo além
da palavra segredo, do
que a palavra secreta.
a palavra secreta ―
o segredo ―
sua possibilidade ―
de palavra ―
seu segredo.
o segredo só existe para
quem supõe o mistério.
as palavras
emudeceram
o segredo ―
agora secreto.

2 comentários:

Pedro Góis Nogueira disse...

Poema belíssimo. Extraordinário.

Abraço

Mariana disse...

Pedro, obrigada, confesso que não esperava um elogio como este que me fazes.

Eu conheço bem o artigo de fundo desse texto-poema, e há coisas, quando não temos o que fazer com elas, que encontram destino (esta é a palavra) na linguagem, deixando de assombrar.

Abraço.