Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 1 de outubro de 2011

Rainer Maria Rilke: Livro de Horas

Eu tenho hinos que guardo em silêncio.
Há um ser passado em julgado
dentro do qual meus sentidos inclino:
tu me vês grande e eu sou pequenino.

Podes no escuro diferenciar-me
das coisas que se põem de joelhos:
rebanhos elas são e estão pastando,
sou o pastor na vertente de sarça
para onde elas vão quando a noite vem.

Então, depois delas, eu vou chegando
e surdamente ausculto as ensombradas pontes,
e na fumaça que lhes cobre os lombos
passa dissimulado meu retorno.

RILKE, Rainer Maria. Livro de horas. Trad. Geir Campos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993, p.56.

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