Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 1 de outubro de 2011

Dora Ferreira da Silva

PEDAGOGIA DO PÁSSARO

Assomo à janela.
Nem vento ou rumor de passos
na relva.
Diz-me o sabiá: desce ao jardim!

Muitas flores colhi ao acaso
lá onde antes a aurora me fizera crer
que a vida era coisa inútil
gesto sem valia.


Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.168. 

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