Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 4 de outubro de 2011

enganos

As palavras armam sentenças, círculos concêntricos potencialmente indeléveis envolvendo cada ser. Mas existe um lugar ― brecha ― onde o milagre das letras alinhadas uma após outra dá ensejo à vida. É este o único lugar que interessa à criação. Um verso, colhido ao acaso: “A verdade da morte não nos serve”. O que é a verdade da morte? É cultivar a vida em função da morte? É cultivar a morte pensando cultivar a ilusão da vida? O poeta parece conhecê-la: o próprio modo com que o verso é enunciado informa, pela noção de pressuposição, que o poeta está dispensando algo que visitou: “não nos serve”. A morte, porém, não deixa de ser norte para a vida. Ninguém consegue esquecer que finará um dia, embora o correr da vida faça disso uma espécie de certeza adormecida. Então o verso parece querer dizer outra coisa: o que quer que receba o nome de criação precisa buscar seu norte em paragens distintas da morte ― e da própria verdade. Talvez a própria expressão “verdade da morte” seja um indício de que a morte está nisso que se chama verdade, quando deixa de ser busca para tornar-se formulário. O que é a verdade? Para além desta pergunta tão enigmática quanto o que nela se pergunta, haverá trilho seguro que leve até a verdade? Alguém poderia responder, sem titubear, à pergunta que Alice, em sonho, dirige à sua gata: “Vamos, Dinah, conte-me a verdade: algum dia você já comeu um morcego?” É o próprio narrador quem adverte, um pouco antes, quando Alice baralha as perguntas: como não sabia responder a nenhuma delas, o jeito como as fazia não tinha importância. O jeito com que uma pergunta é feita afeta sua resposta. 

4 comentários:

Marcantonio disse...

Mas será que realmente todos conhecem a morte como um fato. Trata-se do fato mais negado e o que põe em xeque a noção de verdade como algo que sirva simultaneamente à razão, à emoção e ao desejo, e que assim venha a libertar. E, não é curioso que o que é dito verdadeiro seja também dito necessário? E que necessidades (ou verdades) internas modifiquem a forma de se fazer perguntas necessárias?
Há um argumento lógico (atribuído a Hume) que pretende colocar como impossível a verdade obtida por por via indutiva, e que se exemplifica assim: como afirmar que todo homem é mortal se não posso comprová-lo em cada homem existente e menos ainda nos que estão por nascer? Que incrível que esse argumento de um cético se faça paralelo aos "argumentos" emocionais da maior parte dos homens que não se servem da verdade da morte.
E nem sei dizer se ela tem de fato alguma serventia, porque um Sócrates dizia que filosofar é aprender a morrer, e Platão o põe no Fédon a demonstrar a ilusão da morte antes de tomar serenamente a cicuta. Teria aprendido a morrer negando a morte. Uma ilusão demonstrada logicamente que serve para negar a verdade de um fato que não serve ao ânimo de viver.
Sim, a criação se afirma como negação de limites, instinto que sequer busca, por ameaçadora,a verdade de si mesmo, pois perceberia em seu excesso um mecanismo, vinculado à finitude, para cobrir as perdas . Pela ilusão elimina até o sentido constritor de um adiamento. Afinal, parece que a pulsão criativa que se permite vislumbrar a verdade, se contamina de melancolia, nome que se dá à pergunta obsessiva "Valerá a pena?".

Abraço.

Mariana disse...

Prezado Marco, receio ter me metido numa embrulhada ao escrever este post. Empiricamente, poderia lançar mão dos próprios lances do dia, um pouco ao modo de Clarice Lispector, mas a linguagem é traiçoeira (vide o relato do Gênesis). Os muitos lances do dia, de vez em quando, permitiam-me uma brecha em que eu vislumbrava o post e seu comentário.

Confesso que, quando li seu comentário, pensei: e agora, dona Mariana, quem mandou ir mexer no vespeiro? Bem, quem mandou foi a Dona Necessidade.

Epistemologicamente eu seria (ou melhor, sou) incapaz de debater o que você propõe, o sentido filosófico da morte, a morte pensada filosoficamente. Me ocorrem ideias, é claro, lampejos, coisas pensadas na pressa. Mas, como tais, não poderia esmiuçar. Consigo sentir profundamente o que o poeta expressou.

Vou citar apenas um exemplo que me incomoda. Adorno, em texto conhecido, disse que não seria mais possível escrever poesia depois de Auschwitz. Que é isso senão extrair uma verdade da morte, e com tom peremptório? Toca lá o Adorno batendo na casa dos poetas e dizendo-lhes que não podem mais criar porque a catástrofe foi longe demais. Eu passei o mestrado escutando isso, "que não dá mais para Diadorim". Também ouvi certa feita a Olgária Mattos fazer dos campos de concentração de Auschwitz metáforas do capitalismo, prisma pelo qual só restava à audiência aceitar que estávamos todos mortos.

Ora, isso é ponto para uma polêmica e meia, questão das mais controversas. Mas é inegável que uma "verdade da morte" foi aí erigida como baliza para dizer que não há mais lugar para a poesia no mundo. Por quê? E os outros mortos? E os mortos de todos os tempos? E os escravos egípcios? E os escravos africanos? O capitalismo é uma barbárie única, contínua. É muito complicado comparar suas atrocidades e dizer que... Enfim, este é um debate do qual me afastei. E acho que hoje o dito de Adorno perdeu a credibilidade.

Abraço.

Marcantonio disse...

Também nunca gostei da frase de Adorno, e pelos motivos que você mencionou: como medir a que extensão chegara a crueldade, a tragédia e a barbárie no passado? O que devia estar por trás da frase era a funda decepção com um tempo no qual se supunha que essa barbárie não mais teria espaço. Com um século que se iniciara impulsionado pelo otimismo científico. Ora, se Adorno tivesse dito que a Ciência ou a Filosofia não mais seriam possíveis... Mas a poesia? A arte? Quantos já haviam visto nela o veículo capaz de tornar a miséria suportável?!
Parece que é isso que talvez o poema de Alexei Bueno revela: à poesia não interessa diretamente a verdade, assim como não interessa ao instinto do ser vivente. E se ela reflete a realidade, não é como um espelho, mas como um prisma que decompõe o real. Até mesmo no que se refere ao seu suporte material, porque se há uma "verdade" da língua (de uso funcional, ou de um uso que se pretenda preciso, unívoco, necessário, estritamente referencial) a poesia o rejeita.
Bem, mas, enfim, isso está dito desde Platão, não é? Na cidade perfeita, harmônica, justa e feliz, não há lugar para a poesia, só se for para cantar loas redundantes.

Abraço.

Mariana disse...

Pois é, entre outras, a frase de Adorno trai uma profunda arrogância que a filosofia por vezes assume no mundo, como repertório da verdade, a que a arte responde, sutilmente, dizendo que a verdade não lhe interessa.

Concordo com o que você pondera sobre o alcance e as consequências da frase de Adorno, e confesso que nunca tinha me feito esta pergunta: por que não a filosofia? A ciência? Pois é inegável que a ciência vem potencializando a catástrofe (e aí voltamos aos seus dois mitos fundadores, a árvore bíblica cujo fruto expulsou o homem do éden e Prometeu). No entanto Adorno quis expulsar da pólis (repetindo pelo avesso Platão?) a poesia!

Tem uma noção, que o Gramsci propôs, dos intelectuais orgânicos, aqueles que "respondem" por um dado grupo ou coletividade. Um dia, num intervalo de aula numa disciplina sobre intelectuais, nós estávamos divagando sobre quantos intelectuais/ pensadores proeminentes do século XX tinham origem judaica... Daí que essas coisas passam por aí também. O que acho mais complicado, ainda, é tentar fazer das questões de um grupo questões universais. É como se houvesse uma baliza segura para medir a dor do outro. Meu Deus!

À medida que me afastava disso, ia conseguindo discernir outras coisas, outros mortos. Por exemplo, o massacre dos armênios pelos turcos na Primeira Guerra Mundial, retratado no belo e pungente Ararat (mas isso não rende Oscar).

http://www.youtube.com/watch?v=LI4E9Ke0-SY

E as mulheres que trajam burca, naquele lado do mundo que mal conseguimos entrever? E os nossos próprios mortos, deste país, cujo processo civilizatório parece uma lenda que se perdeu enquanto as caravelas se dirigiam para cá?

A poesia, a arte, me parece, continuam o reduto para resistir, não importa a quê. E também é fundamental poder discernir essa "verdade da língua", da linguagem, o que a linguagem permite ou não dizer.

Abraço.