Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Julio Cortázar

Tia explicada ou não

Uns mais outros menos, meus quatro irmãos se dedicam à filosofia. Leem livros, discutem entre si, e são admirados a distância pelos outros da família, fiel ao princípio de não se intrometer nas preferências alheias e inclusive favorecê-las na medida do possível. Estes rapazes, que me merecem um grande respeito, discutiram mais de uma vez o problema do medo de minha tia, chegando a conclusões sombrias, mas talvez razoáveis. Como costuma acontecer em casos semelhantes, minha tia era a menos informada dessas assembleias, mas desde essa época a preocupação da família se acentuou ainda mais. Há anos acompanhamos a tia em suas titubeantes expedições da sala ao pátio, do quarto ao banheiro, da cozinha à despensa. Nunca achamos fora de propósito que ela se deitasse de lado e durante toda a noite conservasse a mais absoluta imobilidade, os dias pares para o lado direito, e os ímpares do lado esquerdo. Nas cadeiras da sala de jantar e do pátio, a tia se instalava muito ereta; não aceitaria por nada deste mundo a comodidade de uma cadeira de balanço ou de um sofá Morris. Na noite do Sputnik a família jogou-se no chão do pátio para observar o satélite, mas a tia ficou sentada e no dia seguinte teve um bruto torcicolo. Pouco a pouco nós fomos nos habituando e hoje estamos resignados. Nossos primos irmãos nos ajudam e fazem referência ao assunto com olhares inteligentes e dizem coisas tais como: “Ela tem razão.” Mas por quê? Nós não sabemos e eles não querem explicar. Por mim, por exemplo, acho muito cômodo ficar de costas. O corpo todo se apoia no colchão ou nos ladrilhos do pátio, a gente sente os calcanhares, as panturrilhas, as coxas, as nádegas, as espáduas, os braços e a nuca, que dividem o peso do corpo e o distribuem por assim dizer no chão, aproximam-no tão bem e tão naturalmente dessa superfície que nos atrai com voracidade e parece querer engolir-nos. É curioso que, para mim, ficar de costas seja a posição mais natural e às vezes desconfio que minha tia lhe tem horror por isso mesmo. Eu a acho perfeita e penso que no fundo é a mais confortável. Sim, disse bem: no fundo, bem no fundo, de costas. Até me dá um pouco de medo, algo que não consigo explicar. Como eu gostaria de ser igual a ela, e como não consigo.

CORTÁZAR, Julio. Histórias de cronópios e de famas. Trad. Glória Rodriguez. 12.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p.34-35.

Um comentário:

josépacheco disse...

maravilhoso, de facto.