Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

W. H. Auden

A SOLITÁRIA NATA

Eu ouvia da sombra, numa cadeira de praia,
A gama de ruídos que por meu jardim se espraia
E julgava de toda conveniência se isentasse
Do dom da palavra tanto os vegetais como as aves.

Um tordo sem nome de batismo repetia
O Hino Tordo, que era tudo quanto conhecia.
Por terceiro esperavam as flores roçagantes
Para dizer-lhes, sendo o caso, quais os pares de amantes.

Não seria, nenhum deles, capaz de mentir;
Tampouco havia ali quem sentisse a morte vir-
Lhe ou que, com ritmo ou rima, pudesse dar tento
Da sua responsabilidade pelo tempo.

Ficasse a linguagem para a solitária nata
Dos que contam os dias e esperam cartas.
Ao rir e ao chorar, nós também fazemos ruídos.
Palavras são só para os que estão comprometidos.


THEIR LONELY BETTERS

As i listened from a beach-chair in the shade
To all the noises that may garden made,
I seemed to me only proper that words
Should be withheld from vegetables and birds.

A robin with with no Christian name ran through
The Robin-Anthem which was all it knew,
And rustling flowers for some third party waited
To say which pairs, if any, should get mated.

Not one of them was capable of lying,
There was not one which knew that it was dying
Or could have with a rhythm or a rhyme
Assumed responsibility for time.

Let them leave language to their lonely betters
Who count some days and long for certain letters;
We, too, make noises when we laugh or weep:
Words are for those with promises to keep.

W. H. Auden. Poemas. Trad. José Paulo Paes. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p.116-117.

2 comentários:

Zé alberto disse...

Gosto de Auden, gosto de alguns ingleses nos versos, de tal forma que coloquei o livro de Eliot sobre os gatos por sobre a mesinha de cabeceira e nunca mais de lá saíu.

Abraço.

Mariana disse...

Poesia é uma arte diferenciada. Impossível viver sem ela.

Em tempo: este poema encerra uma ambiguidade fascinante. Os versos finais deixam em aberto, no meu entender, se a linguagem seria privilégio ou não.

Abraço.